O velho mestre já avistava o local que utilizariam para espionar a batalha. A serra em dado ponto formava uma espécie de falésia de cerca de 40 passos de altura sobre o planalto, o que permitia que a dupla de lutadores enxergasse o que ocorria lá embaixo simplesmente deitando sobre a beirada da serra. O riacho, que tinha a nascente serra a dentro estava pouco mais a frente deles, e desaguava sobre um lago. Isso decerto significava que o ponto era excelente para se observar em segredo, pois a neblina causada pela queda d’água e o barulho da pequena cachoeira encobriria com facilidade a presença dos bravos lutadores.
O céu que antes estava limpo e claro, começava a adentrar o final da tarde, ganhando um tom mais escuro. Nuvens estranhamente aglomeravam-se sobre o planalto e um pedaço da serra, criando um círculo de nuvens, o que era estranho mesmo nas terras de Shiang.
Nada passava desapercebido pelo mestre Kwao, que já advinhava que um dos participantes do conflito logo abaixo, com forma esguia, vestes mal cuidadas e um grande chapéu de palha deveria ser um viajante, devotos ao deus Sukon Godin, o gigante de bronze.
O velho lutador estava correto, e esse tirês manuseava uma arma de duas barras de aço ligadas por uma corrente, também conhecida como nunchaku. O tirês fazia com que o objeto dançasse em suas mãos e de vez em quando raios e faíscas relampejavam da arma.
- Mestre, aquele tirês com o Nunchaku parece muito poderoso!
- Provavelmente ele é, pequeno Kin. Ouso dizer que ele deve ser a razão pela qual o vento está desviando desse local.
- Mas ele parece estar junto daquele senhor que parece um Servidor, do jovem com o arco e do guerreiro Lâmina Mortal. Ele deve estar do lado bom.
- Nem sempre o lado bom deixa de causar medo jovem Zao.
Excepcionalmente dessa vez Kwao estava errado. O que seus olhos astutos começaram a perceber foram as cinco figuras vestidas com mantos negros e uma insígnia vermelha que se acercavam do riacho a alguma distância do grupo que estava com o Viajante. Uma das cinco figuras já havia tombado sobre o riacho, atingida provavelmente pelo esguio tirês portando o arco, que acertou no pescoço a desafortunada figura que agora jazia sobre a água. Ao seu lado também jazia um símio, com feridas de espada em todo o corpo.
Os quatro que restavam em pé, continuaram um cântico que podia ser percebido mas não entendido por Kin e Kwao devido ao barulho da cachoeira. As palavras que saíam das bocas das enigmáticas figuras não eram ouvidas há muitos séculos nos domínios de Shiang, e apesar de não terem sido ouvidas pelos dois observadores, foram muito bem entendidas pelo Servidor.
- Eles estão conjurando um encantamento, ou algo parecido. – afirmou, o Servidor.
- Nunca ouvi um encantamento então, pois nunca ouvi essa língua. – retrucou o Viajante.
- O que se fala é um idioma que só a cúpula e o divino imperador saberiam traduzir e compreender. Acho que é a velha língua dos Lantros.
- Vejam, algo está acontecendo! – gritou Toshiro o jovem com o arco, enquanto aprontava mais uma flecha para disparar em direção aos seus inimigos.
Os quatro tireses de manto negro estavam de mãos dadas, sendo que o último deles carregava em sua mão livre um sino, que soava um estranho tilintar. O estranho objeto além de emitir a pálida luz violeta, começou a brilhar com intensidade e a emitir sons de lamentos, gritos e gemidos, altos o suficiente para serem ouvidos até pela dupla de lutadores sobre a serra.
Toshiro disparou mais uma vez e sua flecha voou certeira, acertando a figura que carregava o sino-portal, infelizmente, tarde demais.
O sombra que estava à frente, provavelmente o líder de todos eles, gritava as seguintes palavras, enquanto seu corpo era consumido em um fogo negro, que drenava toda sua vida e seus pensamentos para a finalização do encantamento:
- Há cem anos que as Terras de Shiang não tem o privilégio de receber nosso ilustre convidado! Preparem-se para morrer e nos encontrar no Plano dos Tormentos, emissários de Shiang!
- Emissários de Shiang? Mestre, sobre o que eles estão falando? Nós somos os emissários de Shiang! – disse o preocupado Kin Zao a seu mestre
Kwao Zao não respondeu. Seus olhos estavam atentos demais a aterradora cena que se desenrolava onde antes se encontravam os quatro sombras.
O sino pairava sozinho no ar envolta em uma luz negra, que rodopiava ao redor de seu centro, formando um pequeno redemoinho. O chão parecia se abrir e dessa fenda focos de luz negra eram sugados para o centro do redemoinho, ganhando forma material e montando uma imensa massa disforme de carne putrefeita, garras, ossos, olhos e rostos agonizantes e raivosos, de tireses que há séculos estavam condenados a passar a eternidade no plano dos tormentos.
O corpo da criatura começava a ganhar forma, com quatro braços, garras nas patas e nas bocas do tamanho das mãos dos tireses, rostos e bocas que urravam de dor e agonia formando o tronco, e uma cabeça com buracos para os olhos na parte do rosto e da nuca que emitiam um brilho negro que era capaz de sugar as emoções daqueles de vontade fraca, a besta gigantesca ergueu-se sobre duas pernas que tinham o tamanho de um tirês adulto.
Sua boca se abriu e dela saiu um rugido que gelou a espinha do mestre Kwao e fez Kin fechar os olhos e esconder o rosto, pois a sua impressão é que a criatura sabia onde estava cada ser vivo e qual o seu pior medo, pois todos seus medos de infância começaram a vir a tona em sua mente.
Após o rugido, a fera continuou a falar em uma língua estranha, mas que falava diretamente na cabeça de cada um dos quatro bravos heróis que já se dispunham a enfrentar e aniquilar o aterrorizante inimigo.
- Vocês terão a honra de servirem de desjejum para mim, o Daichega Kabin, o primeiro Rei Sombra, o devorador de almas! Rendam-se agora, entreguem-se a mim e prometo que seu sofrimento junto dos meus demais escravos não será grande. Caso a sua escolha seja a honra do suicídio pelo sepuko para tentar fugir do seu inevitável destino, buscarei pessoalmente suas almas para aprisioná-las em meu estômago enquanto meus escravos dilacerarão sua alma imortal!
Ao falar isso, todas as bocas e rostos no corpor do Rei Sombra gemiam e gritavam com raiva, rangendo os dentes e lambendo os beiços pela refeição que estava por vir.
- Não há chance de vencer, entreguem-se agora! – finalizou o devorador de almas.
- Nunca nos entregaremos! Vamos devolvê-lo para o plano dos Tormentos, de onde uma coisa como você jamais deveria ter saído. – respondeu valentemente Chieng Lao, o Viajante.
- Amigos, caso algo de ruim aconteça hoje, gostaria de dizer que foi uma grande honra lutar ao lado de guerreiros tão bravos. – disse Mao Siu, o Lâmina Mortal.
Chieng Lao estava orando para que Sukon Godin os ajudasse a derrotar os sombras desde o momento em que Toshiro disparou a primeira flecha que matou o sombra caído sobre as águas do riacho. Apesar de não ter feito seu pedido com o fervor costumeiro por acreditar que o Gigante de Bronze não precisaria ser incomodado para derrotar algumas figuras estranhas vestidas de preto, o deus dos Viajantes já sabendo o que estava por vir começou a formar a tempestade sobre o local da batalha.
- Ele tem um ponto fraco. – Sussurou Mao Siu para aos demais já empunhando sua katana.
- Apesar de conseguir expulsar maus espíritos, meus poderes não funcionam contra ele. – disse Ho Kazaoke, o Servidor.
- Também não vejo como derrotá-lo. – disse Toshiro com o arco retesado e uma flecha pronta para ser disparada rumo ao olho da criatura.
- Um Viajante não pensa no ponto fraco do inimigo. Ele é o ponto fraco do inimigo. – Chieng Lao sorria ao dizer essas palavras como se estivesse sabendo de algo que os demais desconheciam.
- Ele pensa que não pode ser derrotado, esse é seu maior ponto fraco. Fora do plano dos tormentos ele é tão vulnerável quanto qualquer um de nós, mas ainda assim pensa que pode nos derrotar sem esforço. Vamos usar isso contra ele.
Todos acenaram com a cabeça que concordavam com a idéia. Afinal, parecia ser de fato a única maneira plausível de derrotar uma fera inteligente com o tamanho de três tireses adultos. Antes de todos partirem para cima da criatura, o viajante fez um último pedido.
- Quando começar a chover fujam para a serra. É a nossa única chance de vencer, confiem em mim.
Os demais já estavam acostumados com os pedidos misteriosos de Chieng Lao, mas esse realmente era bastante excêntrico. Por acaso o grito do Rei Sombra havia feito com que ele enlouquecesse? E mesmo notando a descrença aparente nos rostos de seus companheiros, ele repetiu:
- Fujam para a serra, é tudo o que eu peço.
A criatura emitiu mais um rugido ensurdecedor antes de sair correndo em disparada na direção dos quatro tireses. Os trinta passos de distância entre ela e eles parecia ter diminuído tamanha a velocidade com que a fera se movia. Ela corria aos saltos e em tempo de três respirações já estava no mesmo local que nossos bravos tireses.
Apesar de menores, os quatro tireses eram bastante ágeis e conseguiram desviar e correr do ataque repentino. Era com certa dificuldade que os quatro tentavam coordenar a investida contra o Rei Sombra. Os quatro circundavam o alvo, tentando atacá-lo de todas as formas e com todas as armas possíveis, mas nada parecia surtir efeito. Por ter olhos na nuca, um ataque nunca pegava a fera de surpresa e os quatro braços se moviam tanto para a frente quanto para trás, permitindo que ela atacasse praticamente todos ao mesmo tempo.
Toshiro buscava uma forma de acertar uma flechada nos olhos da criatura, mas nas duas tentativas que havia realizado, ela conseguiu esquivar-se rapidamente. Pelo seu estilo de luta, Kazaoke não podia ajudar seus companheiros sem se expor ao risco de ser agarrado.
Mao Siu parecia estar no controle da situação, mas estava tenso pela inexperiência. Ficava sempre no flanco, aproveitando as investidas contra Kazaoke e Toshiro para atacar com sua katana. O único problema parecia ser uma espécie de couraça que envolvia o corpo do Sombra, o que impedia que a espada causasse algum ferimento.
Chieng Lao tinha se colocado próximo ao lago. Vez ou outra era possível ver faíscas em seus olhos mas fora isso, mesmo um observador atento não poderia ver seu corpo se mexer. Estava tão concentrado que sua respiração estava muito fraca, seus olhos não piscavam, e suas mãos estavam estendidas imóveis para o céu. Somente sua boca se movia, murmurndo alguma coisa.
Trovões ensurdecedores começaram a ribombar sobre o local da batalha. O som era tão alto e forte que a impressão que Kwao e Kin tiveram era que estavam no dentro de um sino de bronze que havia sido badalado. Kin foi quem primeiro percebeu que os guerreiros estavam ficando cansados e que misteriosamente o viajante nem era percebido pela besta.
Ventos fortes sacudiram as árvores e Kwao ficou apreensivo. Kin parecia estar se envolvendo demais com o ânimo da batalha e não conseguiria impedi-lo de descer a serra, caso por impulso ele saltasse e descesse correndo o paredão de pedra. Já havia visto isso acontecer algumas vezes e apesar de confiar no treinamento e na disciplina a que o discípulo havia se submetido, tudo era possível quando se tratava de Kin e brigas em geral.
A situação se tornava crítica a cada momento. Os três estavam exaustos e Lao não se movia. Mao Siu começava a duvidar da capacidade deles em vencer e já procurava uma maneira de fugir pela floresta.
Restavam somente cinco flechas para Toshiro. Cinco chances e depois se tornaria um alvo fácil, sem poder auxiliar seus amigos. Ele estava mais uma vez com o arco pronto para disparar, seus dedos doíam e sangravam pelo esforço contínuo de manter o arco puxado tantas vezes em pouco tempo. Havia escolhido trocar de lugar com Mao Siu, ocupando o flanco ao invés das costas.
A criatura vacilou e tropeçou, deixando um dos olhos expostos para a flechada certeira do caçador. Ele disparou sem ânimo, sabendo que a fera desviaria. Infelizmente para ela, isso não aconteceu.
A flechada acertou um dos olhos em cheio, fazendo com que do seu brilho negro jorrase na direção de Toshiro um líquido vinho enegrecido, que se transformava em névoa aos poucos assumindo com formas de tireses que pareciam aliviados com o golpe e com a liberdade que lhes havia sido concedida.
Kabin urrava de dor e levou uma das mãos ao olho ferido para retirar a flecha. Os três tiveram a impressão de que ele havia ficado menor após o golpe e começaram a pensar que de fato seria possível vencê-lo.
Animado com a chance de atacar o Rei Sombra que ainda se contorcia, Kazaoke pulou sobre a fera, tentando atacar os dois olhos do rosto, mas dois dos quatro braços o agarraram no ar, segurando ao mesmo tempo seu pescoço sua perna. O Servidor contemplou os olhos negros que falavam diretamente em sua mente todas as formas com que sua alma seria torturada e dilacerada.
Kin tentou preparar-se para saltar e Kwao antevendo o movimento, imobilizou seu discípulo que enfurecido gritava:
- Me solte, me largue seu velho idiota! Não vê que eles precisam de ajuda!?
- Você está com a febre da guerra Kin, não podemos ajudar, nós viemos aqui para ver, ouvir e voltar e nada mais.
Com uma pequena torção no braço do jovem, o mestre terminou a imobilização e com o outro braço livre puxou uma agulha enfiando-a na base da nuca do rebelde aprendiz, que não conseguia mais se mover nem falar. Ele só piscava e olhava com raiva para o velho mentor, que continuava a olhar com calma a cena que transcorria um pouco abaixo, enquanto limpava a água da chuva que haviam molhado seu rosto.
Ela começou de repente com um estrondo. A chuva torrencial inundava a serra, e transformou a pequena queda d’água do riacho e uma caudalosa cachoeira, que começou a inundar o planalto.
Mao Siu e Toshiro souberam que era tarde demais para o Servidor quando ouviram o estalar de seu pescoço quebrando como um graveto e um brilho azul fugir de seus olhos para a boca do devorador de almas, que com essa refeição havia crescido novamente. Os dois lembraram do insano pedido do viajante e aproveitaram enquanto a fera se ocupava em absorver a essência do desafortunado Ho Kazoke para fugir em disparada, subindo a serra.
Lao já se movia agora. Estava feliz como sempre ficava quando chovia e mais feliz ainda porque sabia que dessa vez, o gigante de bronze estava ao seu lado. Percebeu que todo o planalto estava inundado próximo à cachoeira e sorriu ao provocar o Rei Sombra.
- Ei, você tem uma última chance para voltar para baixo da terra ou onde quer que seja o lugar que você deveria estar!
Daichega gargalhou. Alto como se hpa muito não houvisse coisa tão hilária. Com todas as bocas ao mesmo tempo e colocando os quatro braços para o alto e depois para baixo, virando-se para olhar quem seria o inseto capaz de tamanho desatino.
- Muito bravo tirês! E muito burro! Seus amigos fugiram, o que faz você pensar que pode de alguma forma me derrotar?
O Viajante ficou calado e encarou impassível o olhar ameaçador de Daichega, aguardando pacientemente a investida.
- Vou me lembrar de você após de refestelar na sua carne e usar sua pele como capa! – disse o Rei Sombra
Com um salto já estava a poucos passos de Lao, encarando o viajante e dizendo:
- Últimas palavras?
Um grito, uma explosão, uma voz que eterna clamou utilizando a boca do tirês:
- Desde o início dos tempos eu sou, Sukon Godin é meu nome e te digo Daichega que nenhuma tortura que você infligiu aos meus protegidos e adoradores poderá ser comparada ao sofrimento que você está prestes a sofrer!
Uma descarga elétrica desceu dos céus e subiu do chão, formando uma gaiola de raios que envolviam a criatura que gritava, berrava de dor e de raiva, ao passo que as descargas acertavam seu corpo e libertavam mais alguns escravos do jugo do Rei Sombra. Alguns saiam livres pelo espaço enquanto que outros eram puxados automaticamente para baixo, rodopiando e adentrando o plano dos tormentos.
Ao final somente o espírito do Sombra havia restado, ainda isolado pela prisão elétrica que gritava, com os olhos injetados de fúria e insanidade:
- Eu sabia! As profecias estavam certas, você Chieng Lao, você viajante arauto de Sukon Godin será a ruína de Shiang! Nos veremos ainda, eu juro!
A jaula de raios começava a subir em direção às nuvens, que se abriam para um espaço vazio, escuro e eterno que se fechou logo após a entrada Daichega Kabin, sentenciado ao isolamento completo pelo Gigante de Bronze.
Chieng Lao caiu extenuado ao chão, mal respirando, enquanto as nuvens se dissipavam e o brilho da lua começava a iluminar a noite por detrás delas.