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Contos das Terras de Shiang – Prelúdio

Postado em Arte / Art, Contos / Tales, Notícias / News em 16/10/2010 por leonardoandrade

Os contos narrados nas Terras de Shiang postados nesse site, foram feitos a partir de aventuras jogadas, assim como quase trezentos anos de sua cronologia (600 a 900 do ano tires). O conto a seguir narra a história de um tires que encontrou sua fé em Sukon Godin, uma divindidade que se apresenta aos tireses como um gigante de bronze de imenso poder. A fé em Sukon Godin não é exclusiva dos tireses, e entre os símios e alguns animais a divindade recebe o título de Deus Trovão. Esse conto é um prelúdio da saga ‘Nas Cavernas da Loucura‘, e apresenta Chieng Lao, um jovem mago-guerreiro viajante discípulo do mestre Chuva Gélida.

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Parei para repousar em uma das torres de bronze. Todos os vigias já eram meus conhecidos, uma vez que passava por lá com uma certa freqüência. Cumprimentei a todos e perguntei se poderia ficar por ali e dar um merecido descanso às minhas pernas, já fatigadas após quilômetros de caminhada.

Claro que fora uma pergunta quase retórica, sabia que seria afirmativa a resposta. Entretanto, um pouco de educação ajuda a manter os dentes e órgãos no lugar. Não é bom abusar da sorte nem dos deuses. Eles costumam ser implacáveis com aqueles que abusam de sua boa-vontade.

Não era esse meu caso. Sempre procurei oferecer mais a Sukon Godin que pedir favores a ele. Como viajante, desde muito jovem fui abraçado pela paixão à chuva. Diria até que ficava extasiado quando chovia, sabia quando esse fenômenos temporais ocorreriam e, mais tarde, descobri que incrivelmente, alguns dos poderes temporais atendiam ao meu comando.

Que benção! O Gigante de Bronze, deus do trovão e da chuva, havia permitido que eu, seu humilde servo pudesse controlar algumas das vontades da natureza. Sempre procurei utilizar meus poderes com sabedoria e justiça.

Meu mestre, Chuva Gélida, começou a ensinar-me a utilizar meus poderes. Como todo início, fiquei bastante preocupado se, de fato, conseguiria  controlar aqueles poderes da natureza, tão fortes e imponentes.

Comecei a expor essas dúvidas a meu mestre que, um pouco preocupado, me disse:

-Pequeno Chieng, porque você veio aprender?

-Para dominar meus poderes, mestre.

-E para quê você quer dominar seus poderes?

-Para ser forte e agir com justiça.

-Volte para casa…

-O quê, como assim?

-Vá embora. Você está aqui pelos motivos errados.

Virou as costas e estava indo embora. Peguei-lhe pelo braço e, meu mestre virou-se. Seus olhos brilhavam, com raios vazando pelo canto de seus olhos, seu rosto adquirira feições metálicas e, parecia que estava crescendo, cada vez mais. Estava agora com mais de 30 metros, e eu não era mais que uma formiga, perto do Gigante de Bronze.

Um transe estranho apossava-se de meu corpo. Não conseguia mover meus lábios, tampouco minhas pernas. Estava fixo ao chão, feito estátua perante seu escultor. Uma vez mais a voz metálica dirigiu-se a mim:

-Por quê serves ao propósito de viajante?

Com um esforço supremo sobre minha vontade de fugir, respondi hesitante:

-Para tornar-me forte e justo?

Raios envolveram meu corpo, todos vindos das mãos do Gigante. Estava flutuando agora, subindo em direção à sua cabeça. Parado, sustentado pela eletricidade, frente a frente com o patrono dos viajantes, seus olhos fitavam-me como duas bolas de energia pura.

Pensei que morreria. Aliás, não. Seria eternamente torturado por ele. Que destino cruel, ser torturado pela eternidade. Eis que a voz mais uma vez retumbou por todos os lados e chegou até meus ouvidos:

-Chieng Lao! Pensas que podes agir levianamente com teus poderes e teu destino!? Tens uma missão nestas terras, que lhe será apresentada mais tarde. Adore ao teu deus, Sukon Godin, o Gigante de Bronze, senhor das tempestades, raios e trovões! Sirva-o como puderes fazê-lo melhor e jamais (eu disse jamais!), fuja de um combate!

Esse é teu propósito como aprendiz de Chuva Gélida. Sirva a teu propósito e em breve filho, teu destino lhe será revelado. Sê bom e justo com todos aqueles que cruzarem teu caminho. Aprende os caminhos da tempestade. E eu estarei contigo. De hoje em diante serás conhecido como Raio Mortal, e tenha isso em mente: desonre o nome dos viajantes e eu mesmo tomarei conta de ti, mandando-o às torturas externas das terras infernais! Agora vá, Raio Mortal e, aprenda tudo o que puderes com teu mestre. Pois o tempo dele neste plano está se esgotando e isso, meu filho, é algo que nem eu posso interferir.

Acordo, vestes chamuscadas, meu mestre colocava uma toalha com água morna em minha testa, e olhava ansioso para mim quando perguntou:

-Tudo bem, Raio Mortal?

Como ele sabia, mas…

-Ahnn, sim, tudo mestre.

-Como foi sua conversa com Sukon Godin? Senti que ele queria lhe falar naquela hora, e deixei que meus lábios servissem de instrumento para que o Gigante pudesse conversar contigo, pupilo.

-Mas como o senhor ficou sabendo que eu era Raio Mortal agora, mestre?

-O Gigante também veio conversar comigo, lembrar que meu tempo era curto e que tinhas agora um novo nome. Tens um destino muito bonito à frente, querido aluno. Com disciplina e devoção a teu deus, poderá tornar-se um dos maiores Viajantes que já pisou nas Terras de Shiang.

Conto: Diário da Cúpula (IV) / Aventura: Nas Cavernas da Loucura

Postado em Contos / Tales, Notícias / News em 29/01/2010 por leonardoandrade

O duelo fora marcado em uma antiga arena na cidade de Pedras. Não gostei do local. Antigos governantes tireses, anteriores ao imperador, treinavam gladiadores contra símios e outros animais de florestas. Shiang findou com as arenas, mas isso não diminuiu minha antipatia pelo local onde alguns símios falecerem em condições inaceitáveis.

No dia do duelo, o Shógum Lâmina de Prata pediu que Lâmina Azul cuidasse da segurança do castelo. Tal pedido foi feito para que ele enviasse seu aprendiz, deixando esse carregar consigo sua lâmina mortal. Esse instrumento é bastante impressionante, pois além de arma cortante exímia, carrega consigo uma jóia que armazena mana, e um encantamento de raio poderoso. A jóia é considerável, pois qualquer tirês que saiba utilizá-la pode invocar seu poder a partir da mana contida nela.

Descemos todos para a parte baixa,  e alguns dos poucos tireses presentes viam como esse o maior combate que já ocorrera naquele solo. De uma certa maneira estavam certos, mas eu já era um símio muito velho para combates físicos diretos e o imperador era um ser muito espiritual por assim dizer.

A chegada do imperador foi repentina, e ele procurou o lutador Abraço Pardo para conversar. Após poucas palavras o lutador voltou a seu lugar. Me pergunto se o imperador também controla magias de teleporte. Devo investigar depois.

Enquanto caminhávamos para nossas posições, entrei em contato com meu oponente para lhe dizer que o que aconteceria naquela luta não era uma disputa pessoal, mas sim a busca para o bem do plano terrestre. O imperador mostrou-se impassível diante do meu apelo e me vi então sem escolhas a não ser usar o bracelete prateado. Meu bracelete possuiu uma jóia consideravelmente maior do que a presente na Lâmina Prateada. Já a Lâmina Dourada que o imperador carregava, possuia uma pérola negra. Ela com certeza tem mais potêncial mágico do que a jóia que carrego. Qual será o feitiço que carrega?

O bracelete fora outra invenção minha nos tempos áureos, que fora sendo aprimorada ao longo dos anos, é uma arma extremamente eficiente para o combate espiritual e inofensivo ao corpo físico diretamente. Quando pensava em utilizar o bracelete e me concentrava na tremenda energia que teria de gastar, notei que as atenções estavam desviadas para outro lugar, mais exatamente em um pequeno aglomerado de pessoas próximas a uma das paredes da arena, entre esses membros da equipe de heróis e depois o próprio Shógum da cidade de Pedras, acusado de traição.  Aparentemente o Shógum intencionou mudar de posição e o viajante Raio Mortal, o caçador Toshiro Miasumi, o lutador Abraço Pardo e o Lâmina de Prata cercaram o Shógum acusado de traição.

Logo todos estavam em suas posições novamente, eu observava o imperador, nesse momento exalando sua aura para criar motivação dos que estavam na platéia, também empunhava a Lâmina Dourada, objeto que muitos dos que ali estavam nem sabiam do que se travava, a mais sagrada das lâminas e somente uma vez usada, expulsar um dos Reis Sombras na Dimensão da Escuridão. Pensei melhor e decidi não querer descobrir qual era o feitiço daquele item tão poderoso.

Quando o início da luta foi dado, concentrei-me e ativei com todas as forças o bracelete prateado e rezei para que meu invento funcionasse como nunca funcionara antes, pois eu não podia perder aquela luta. Logo o clarão tomou conta de todo o ambiente e a cegar a todos, mas eu podia ver nitidamente o espírito do imperador se dispersando e num relance notei que ele já esperava por isso. Acho que ele deve possuir outro corpo. Soltou sua poderosa espada e num estranho e distorcido cumprimento, partiu. Estava encerrada a contenda.

Quando desativei o bracelete, poucos eram os que estavam conscientes, alguns dos heróis e o Shógum. Logo que a decisão foi vista, Lâmina de Prata num último esforço cortou a cabeça do Shógum traidor e tudo estava resolvido, ao menos no plano terrestre. Parti então imediatamente para a Cúpula. Ao chegar, fui avisado de que o chefe me chamava em sua sala, isso não me surpreendeu, mas sem dúvida me deixou apreensivo.

Andei até a sua sala, entrei e fechei a porta, pois sabia que ninguém mais merecia ouvir tudo o que eu iria agüentar. O chefe supremo da Cúpula chama-se Vog Amock, um símio que existe hoje somente por força da magia, aliás, todos na Cúpula nem sabem seu nome, lembro-me quando fui apresentado a este logo que entrei para o conclave e os mais velhos ainda o chamavam pelo nome. Nos tempos atuais, somente eu tenho conhecimento disso e todos o chamam de chefe, senhor ou lorde. O corpo de Vog Amock está com cerca de 230 anos atualmente e graças a uma velha jóia mágica a qual herdarei, permanece vivo, mesmo que na forma de um morto-vivo.

Nunca o havia visto em pé em mais de 70 anos de membro da ordem, mas hoje eu o vira e isso não me tranqüilizou nem um pouco. Com um soco forte na mesa, começaram as queixas e as perguntas dos meus atos na luta. Com a explosão causada em força total pelo bracelete, muitas almas foram banidas e houve então um pequeno desequilíbrio nos planos, que somado a toda desordem da abertura do portal deve ter transformado os planos inferiores literalmente num inferno.

Expliquei da melhor forma possível tudo o que acontecia e deixei claro que aquela fora uma última alternativa para uma situação incontornável, o que o acalmou um pouco. Relatei o que descobrira até o momento e Amock então reforçou que eu devia me concentrar no meu objetivo e afirmou que se piorasse ele mesmo desceria para ajudar a arrumar as coisas. A idéia de ver Amock andando pelo plano terrestre me aterrorizou e este deve ter notado em minha face. Descansei após este evento, para repor as forças e recuperar a magia das jóias.

Conto: Diário da Cúpula (III) / Aventura: Nas Cavernas da Loucura

Postado em Contos / Tales, Notícias / News em 18/11/2009 por leonardoandrade

O culpado de todos os fatos até aquele momento, era um tirês. E vivia em uma fortaleza difícil de ser alcançada. Notei então que muitos ali estavam motivados por razões pessoais, Toshiro Miasumi havia perdido seu Godo negro e agora descobrira quem fora o culpado por isso, Mao Siu Lee perdera seu mestre graças a Kao Ling e Raio Mortal mostrou uma fúria insana quando soube do carrasco de seu mestre. Pensei então que talvez tivesse cometido um erro ao anunciar tão abertamente minhas descobertas, mas depois de convencer todos a seguir as leis vigentes, fiquei mais tranqüilo.

Escondido no meio das árvores, um tirês disse:

- Vejo que estão em um impasse. Aceitam uma sugestão?

Tratava-se de um tirês maior do que o normal, e alguns ali reconheciam. Me apresentaram o lutador ‘Abraço Pardo’, cujo pelo prateado me chamou a atenção. Ele foi apresentado como um herói bem conhecido da Cidade de Pedras, muito querido pelo povo tirês. Ele sugeriu:

- Invadir a fortaleza do Shógum é muito dificil.

Nesse instante tentei ler a mente de todos os que estavam ali. Se alguém tivesse ido até o interior da fortaleza eu de posse das informações de localização poderia tentar um teleporte. Infelizmente nenhum deles conhecia bem o lugar. Isso inviabilizava qualquer tentativa, onde o erro seria punido com a morte. Estava cabisbaixo, mas disse para o lutador:

- Prossiga com seu pensamento.

- Sugiro irmos até o Shógum da Cidade do Vento, o Lâmina de Prata. Ele é o incorruptível, e saberá indicar uma solução para punição de um traidor segundo as leis tiresas.

A solução parecia indicada. O Lâmina de Prata foi um tirês que conseguiu exterminar um dos reis sombra. O atual regente da Cúpula, meu líder, em sinal de gratidão o presentou com uma jóia que afasta espíritos. Como os feitos do Lâmina de Prata foram almadiçoados pelos sombras caídos, a jóia mantém muitos espíritos longe do atual Shógum da Cidade de Pedras.

Com o avanço da idade, ela foi cada vez mais necessária ao Lâmina, contudo ele se tornou prisioneiro de sua morada. Pra minha sorte eu conhecia sua morada,  e pelo rosto de espanto de todos, creio que não gostaram muito do teletransporte. Depois de identificações aos guardas, uma comitiva veio ao nosso encontro e o Shógum apresentou-se a mim respeitosamente. Abraço Pardo também foi cumprimentado com um sorriso do Shógum e fomos então conduzidos a uma sala de jantar onde o desenrolar de todos os acontecimentos ecoaram aos ouvidos do Shógum. Ele então pronunciou:

- A palavra de vocês vale como verdade para mim. Me encontrei poucas vezes com Kao Ling, mas nunca o imaginei como sombra. Ele é um dos últimos tireses que assumiram como Shógum por heritariedade. Sua família governou com bons olhos ao povo por quase dois séculos, e ele pode se valer de antigas leis…

Naquele instante o Lâmina de Prata parou sua fala. Uma expressão de preocupação veio a sua face. Chamou então um tirês que era seu conselheiro e ele conversou algum tempo em voz baixa. Depois disse com alguma tristeza:

- Todos os Shóguns, ou famílias, foram nomeados pelo Imperador. No caso de Lâminas traidores, se provada sua culpa estes são exterminados pelo próprio imperador. Essa a lei atual. No caso de Kao Ling , velhos regimentos são vigentes e ele pode utilizar uma velha lei, na qual o governante que tenha sua culpa comprovada pode desafiar para um duelo um de seus acusadores. Se ele perder ele morre, caso vença ele é preso em uma caverna.

O caçador Toshiro perguntou então ao Shógum:

- Mas as cavernas não foram proibidas pelo Imperador?

- Sim em uma lei de duzentos anos atrás. A lei que favorece a Kao Ling é anterior ao Imperador. Quando Shiang assumiu como Imperador algumas pessoas em várias cidades detinham muito poder, incluindo controle sobre pequenos exércitos. Aqueles que eram tidos como justos com o povo, um acordo foi feito: Durante três gerações, os governantes dessas famílias se manteriam sobre as velhas leis, e a partir de então o poder seria passado a alguém designado pelo Imperador. Kao Ling é o último representante dessa geração de governantes.

Resolvi perguntar então:

- E se eu me declarasse desafiante. O que aconteceria em caso de vitória ou derrota?

O Lâmina Mortal ficou surpreso, e disse:

- Acredito que Kao Ling pereceria.

Depois de um documento ser redigido comprovando a culpa de Kao Ling, fora feita a convocação do mesmo para comparecer à corte do Shógum Lâmina de Prata para julgamento. Até sua chegada ficaríamos hospedados na morada do Shógum, que era um espaço muito belo, bem diferente da velha Cúpula.

Ao contrário do que esperavamos, recebemos mensagens trocadas com pássaros adestrados, que informaram a chegada para o próximo dia de Kao Ling.

Descansamos bastante tempo. Pouco antes da hora do almoço do dia seguinte, fora anunciada a chegada do Shógum da Cidade de Pedras.

Assim que Kao Ling chegou, recebeu das mãos do Lâmina de Prata a carta que comprovava sua culpa, e disse:

- Pelas leis antigas, as quais me encontro em julgo, convoco a um duelo um de meus acusadores.

Com bastante calma, saí da penumbra que me encontrava e me apresentei:

- Eu Hoack Khush, vice-líder da Cúpula aceito seu desafio.

Kao Ling parecia surpreso. Em seguida retrucou gritando:

- Eu convoco aqui, diante desse tribunal aquele que instituiu minha família para me representar. Pelas antigas leis, posso eleger um representante.

O Shógum Lâmina de Prata consultou um conselheiro, que com surpresa diante da frase de Kao Ling, disse assustado:

- Senhor, ele pode fazer isso segundo as antigas leis!

Os heróis me olharam, e apesar de ficaram surpresos com o teleporte, viam como pouco provável a minha vitória. Eu tinha um ás na manga, só lamentava pelo imperador que era inocente. Seria um dia de terror para muitas pessoas no duelo, e quem sabe talvez até para mim.

Conto: Diário da Cúpula (II) / Aventura: Nas Cavernas da Loucura

Postado em Contos / Tales, Notícias / News em 27/09/2009 por leonardoandrade

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Antes de viajar para o plano terrestre resolvi dar uma passada nos planos inferiores, para verificar os danos causados por tudo isso e avaliar o estrago. Vi muitos velhos inimigos que tentavam me atacar, sem sucesso graças a um velho invento no qual trabalhei minha vida toda para aperfeiçoar. Os olhares de frustração destes alegraram-me um pouco diante de tão trágica situação, mas tudo isso se apagou repentinamente e quando dei por mim, estava eu no quarto círculo inferior, cercado por uma horda de espíritos tireses caídos e diante de mim um dos velhos Rei-Sombra. No momento que eu preparava o desfecho de minha existência em último esforço, este se manifestou em missão de paz.

Fora este que me relatou exatamente o que ocorrera, um dos Sombras fora invocado pelos Lantros, com uma magia desconhecida para nós. Somado a isso, estes criaram uma aberração com espíritos do plano terrestre, algo que somente os Lantros conseguiram fazer no passado, antes mesmo de começarmos as vigílias pelos planos. Esta aberração provavelmente fora invocada para servir de corpo para o Sombra permanecer no Plano Terrestre.

Ao que parece, algo dera errado nesses planos malignos, fora-me relatado que um grupo de heróis surgiu quando tudo estava ocorrendo e impediu que as duas Aberrações que surgiram caminhassem pelo Plano Terrestre. Decidi que era necessária uma intervenção mais direta da Cúpula nesse caso e resolvi descer pessoalmente para investigar, fato que não só assustou como também surpreendeu o mensageiro. Mas sabia que as forças em questão eram bem maiores do que um grupo de heróis, por melhores que fossem. Era hora de voltar as origens e procurar esses heróis.

* *

Senti-me um ser que não pertencia mais ao plano terrestre, tudo era tão diferente do que eu conhecia, poucas belezas que existiam ainda permanecem e talvez o sonho de convivência pacífica entre símios e tireses esteja mais distante do que nunca. Olhares desconfiados e temerosos a meu respeito denunciam o preconceito e talvez até mesmo o ódio armazenado por anos. E pensar que tudo isso tivesse ruído em menos de 50 anos aos quais me afastei quase brota uma lágrima em meus olhos.

Segundo o relato do vigilante que presenciou todo esse grotesco evento, depois do surgimento da entidade demoníaca notou-se o encaminhamento do Sombra para a Aberração recém criada, sendo esse plano quebrado pela intervenção de um grupo de heróis que destruiu a criatura. São essas as pessoas que eu preciso encontrar.

Iniciei minha caminhada até uma fazenda em Montes Verdes, aparente ponto de início de tudo isso, e durante essa longa caminhada notei o quão grande estão as cidades tiresas, isso poderia ser um problema no futuro. No trajeto, vi vários filhotes tireses que mostravam um total desconhecimento de minha raça, mas fiquei feliz com isso, pois nos jovens só existia a curiosidade e não o temor. Faziam várias perguntas a meu respeito, mas me era difícil responder, meu conhecimento da língua tiresa além de ultrapassado estava enferrujado. Se eu tivesse uma boa fruta da floresta, lhes daria de presente, mas na ausência apenas sorri para os pequenos tireses na esperança de que quando crescessem, tragam mais sabedoria a esse pobre mundo.

As jóias que carregava comigo iluminavam a escuridão do caminho até a velha fazenda, o céu negro refletia a crise que esse plano estava vivendo. Após encontrar o local, parei encostado em uma árvore, minhas velhas costas doíam depois de tanto caminhar. Foi quando eu notei movimentação na fazenda e logo em seguida a saída de um tirês da casa, bebendo algo. Batia com a descrição de um dos heróis e rapidamente ele notou minha presença pelo brilho das jóias. Permaneci atrás da árvore até saber se era quem eu realmente imaginava. Surgiu então outro do grupo e logo em seguida todo o grupo e então saí de trás da árvore e me revelei para o espanto de todos.

Depois de uma breve apresentação, entramos então no assunto que inquietava a todos, o que estava ocorrendo. Revelei somente o pertinente e nada que pudesse apavorar o grupo e então um relato me inquietou, a notícia do rompimento de um dos bolsões de espíritos pelo lado de dentro, algo que eu precisava investigar em seguida. Foi logo em seguida que Raio Mortal, o primeiro com quem tive contato mostrou-me um velho manuscrito que estava presente nas paredes de uma prisão. Uma listagem de nomes dos espíritos que lá estavam aprisionados e o invocador destes, um tal de Kao Ling, nenhum dos nomes representava nada para mim, mas vi que todos ficaram chocados quando relatei e então me contaram que era o Shogun da Cidade de Pedras.

Conto: Diário da Cúpula (I) / Aventura: Nas Cavernas da Loucura

Postado em Contos / Tales, Notícias / News em 23/09/2009 por leonardoandrade

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Diário da Cúpula, 1, 902.

Não compreendo qual foi minha necessidade depois de tantos anos de vida escrever um diário, mas sinto que isto é o princípio de minha partida desse plano terrestre. Assim como não faço idéia de quem irá ler esses relatos aqui contidos, vou então me apresentar: Eu sou Hoack Khush, segundo em comando na ordem da Cúpula, uma entidade que tenta manter regulado os diversos planos de existência, não importando os custos.
Aos meus 90 anos de existência, sinto um certo ressentimento em pensar que minha partida é iminente e será em breve. Não me lamento por minha vida em si, pois sei que ela nada representa diante do grande tecido da realidade, mas sim pelo conhecimento que tenho agora adquirido, de uma utilidade para a ordem sem precedentes. Talvez todo esse conhecimento mantenha-me vivo e com tanto vigor, contrastando com meus pêlos grisalhos que possuo há algum tempo. Possivelmente, se tivesse todo esse arsenal 50 anos atrás, já não temeríamos mais os Reis Sombras, pois iria caçá-los em qualquer plano que fosse, mas hoje já não posso mais.
Quem está lendo essas linhas não poderá nunca captar a paixão juvenil que invade o meu ser ao pensar que poderia destruir todas as ameaças e livrar o plano terrestre do temor de demônios e das Aberrações, minha única testemunha de tal sentimento é a vela que tremula diante dos meus olhos, apoiada em um suporte na minha mesa. Quantos anos que eu não saio desta velha torre? Talvez tanto quanto esse velho candelabro.
Mas hoje pela manhã surgiu uma notícia aterradora e ao mesmo tempo excitante, um dos vigilantes da ordem detectou um túnel interplanar, um evento que ocorreu por poucos segundos, mas bem determinado, pois nesse pequeno intervalo de tempo, um dos poderosos Rei-Sombra migrou para o plano terrestre e a estabilidade entre os planos pode se alterar drasticamente. São necessárias algumas respostas imediatas: Quem criou tal magia, a qual eu realizo com esforço hercúleo, quando necessário? Com qual intenção?  Como o Rei-Sombra sabia de tal evento? Quem são os culpados?
Designei a melhor equipe para averiguar o local da incidência e as conseqüências de tudo isso, mas considero que é necessário um conhecimento maior para lidar com tudo isso, o que me obriga a abandonar minha torre. Penso então que possa em velhice realizar o sonho de adolescência e destruir ao menos um dos Reis-Sombras. Saio então da minha sala com o velho candelabro embaixo do braço, é hora de voltarmos à realidade.

Conto: Batalha em Montes Verdes – Parte 2 / Aventura: Nas Cavernas da Loucura

Postado em Contos / Tales, Notícias / News em 16/09/2009 por leonardoandrade

O velho mestre já avistava o local que utilizariam para espionar a batalha. A serra em dado ponto formava uma espécie de falésia de cerca de 40 passos de altura sobre o planalto, o que permitia que a dupla de lutadores enxergasse o que ocorria lá embaixo simplesmente deitando sobre a beirada da serra. O riacho, que tinha a nascente serra a dentro estava pouco mais a frente deles, e desaguava sobre um lago. Isso decerto significava que o ponto era excelente para se observar em segredo, pois a neblina causada pela queda d’água e o barulho da pequena cachoeira encobriria com facilidade a presença dos bravos lutadores.

O céu que antes estava limpo e claro, começava a adentrar o final da tarde, ganhando um tom mais escuro. Nuvens estranhamente aglomeravam-se sobre o planalto e um pedaço da serra, criando um círculo de nuvens, o que era estranho mesmo nas terras de Shiang.

Nada passava desapercebido pelo mestre Kwao, que já advinhava que um dos participantes do conflito logo abaixo, com forma esguia, vestes mal cuidadas e um grande chapéu de palha deveria ser um viajante, devotos ao deus Sukon Godin, o gigante de bronze.

O velho lutador estava correto, e esse tirês manuseava uma arma de duas barras de aço ligadas por uma corrente, também conhecida como nunchaku. O tirês fazia com que o objeto dançasse em suas mãos e de vez em quando raios e faíscas relampejavam da arma.

- Mestre, aquele tirês com o Nunchaku parece muito poderoso!

- Provavelmente ele é, pequeno Kin. Ouso dizer que ele deve ser a razão pela qual o vento está desviando desse local.

- Mas ele parece estar junto daquele senhor que parece um Servidor, do jovem com o arco e do guerreiro Lâmina Mortal. Ele deve estar do lado bom.

- Nem sempre o lado bom deixa de causar medo jovem Zao.

Excepcionalmente dessa vez Kwao estava errado. O que seus olhos astutos começaram a perceber foram as cinco figuras vestidas com mantos negros e uma insígnia vermelha que se acercavam do riacho a alguma distância do grupo que estava com o Viajante. Uma das cinco figuras já havia tombado sobre o riacho, atingida provavelmente pelo esguio tirês portando o arco, que acertou no pescoço a desafortunada figura que agora jazia sobre a água. Ao seu lado também jazia um símio, com feridas de espada em todo o corpo.

Os quatro que restavam em pé, continuaram um cântico que podia ser percebido mas não entendido por Kin e Kwao devido ao barulho da cachoeira. As palavras que saíam das bocas das enigmáticas figuras não eram ouvidas há muitos séculos nos domínios de Shiang, e apesar de não terem sido ouvidas pelos dois observadores, foram muito bem entendidas pelo Servidor.

- Eles estão conjurando um encantamento, ou algo parecido. – afirmou, o Servidor.

- Nunca ouvi um encantamento então, pois nunca ouvi essa língua. – retrucou o Viajante.

- O que se fala é um idioma que só a cúpula e o divino imperador saberiam traduzir e compreender. Acho que é a velha língua dos Lantros.

- Vejam, algo está acontecendo! – gritou Toshiro o jovem com o arco, enquanto aprontava mais uma flecha para disparar em direção aos seus inimigos.

Os quatro tireses de manto negro estavam de mãos dadas, sendo que o último deles carregava em sua mão livre um sino, que soava um estranho tilintar.  O estranho objeto além de emitir a pálida luz violeta, começou a brilhar com intensidade e a emitir sons de lamentos, gritos e gemidos, altos o suficiente para serem ouvidos até pela dupla de lutadores sobre a serra.

Toshiro disparou mais uma vez e sua flecha voou certeira, acertando a figura que carregava o sino-portal, infelizmente, tarde demais.

O sombra que estava à frente, provavelmente o líder de todos eles, gritava as seguintes palavras, enquanto seu corpo era consumido em um fogo negro, que drenava toda sua vida e seus pensamentos para a finalização do encantamento:

- Há cem anos que as Terras de Shiang não tem o privilégio de receber nosso ilustre convidado! Preparem-se para morrer e nos encontrar no Plano dos Tormentos, emissários de Shiang!

- Emissários de Shiang? Mestre, sobre o que eles estão falando? Nós somos os emissários de Shiang! – disse o preocupado Kin Zao a seu mestre

Kwao Zao não respondeu. Seus olhos estavam atentos demais a aterradora cena que se desenrolava onde antes se encontravam os quatro sombras.

O sino pairava sozinho no ar envolta em uma luz negra, que rodopiava ao redor de seu centro, formando um pequeno redemoinho. O chão parecia se abrir e dessa fenda focos de luz negra eram sugados para o centro do redemoinho, ganhando forma material e montando uma imensa massa disforme de carne putrefeita, garras, ossos, olhos e rostos agonizantes e raivosos, de tireses que há séculos estavam condenados a passar a eternidade no plano dos tormentos.

O corpo da criatura começava a ganhar forma, com quatro braços, garras nas patas e nas bocas do tamanho das mãos dos tireses, rostos e bocas que urravam de dor e agonia formando o tronco, e uma cabeça com buracos para os olhos na parte do rosto e da nuca que emitiam um brilho negro que era capaz de sugar as emoções daqueles de vontade fraca, a besta gigantesca ergueu-se sobre duas pernas que tinham o tamanho de um tirês adulto.

Sua boca se abriu e dela saiu um rugido que gelou a espinha do mestre Kwao e fez Kin fechar os olhos e esconder o rosto, pois a sua impressão é que a criatura sabia onde estava cada ser vivo e qual o seu pior medo, pois todos seus medos de infância começaram a vir a tona em sua mente.

Após o rugido, a fera continuou a falar em uma língua estranha, mas que falava diretamente na cabeça de cada um dos quatro bravos heróis que já se dispunham a enfrentar e aniquilar o aterrorizante inimigo.

- Vocês terão a honra de servirem de desjejum para mim, o Daichega Kabin, o primeiro Rei Sombra, o devorador de almas! Rendam-se agora, entreguem-se a mim e prometo que seu sofrimento junto dos meus demais escravos não será grande. Caso a sua escolha seja a honra do suicídio pelo sepuko para tentar fugir do seu inevitável destino, buscarei pessoalmente suas almas para aprisioná-las em meu estômago enquanto meus escravos dilacerarão sua alma imortal!

Ao falar isso, todas as bocas e rostos no corpor do Rei Sombra gemiam e gritavam com raiva, rangendo os dentes e lambendo os beiços pela refeição que estava por vir.

- Não há chance de vencer, entreguem-se agora! – finalizou o devorador de almas.

- Nunca nos entregaremos! Vamos devolvê-lo para o plano dos Tormentos, de onde uma coisa como você jamais deveria ter saído. – respondeu valentemente Chieng Lao, o Viajante.

- Amigos, caso algo de ruim aconteça hoje, gostaria de dizer que foi uma grande honra lutar ao lado de guerreiros tão bravos. – disse Mao Siu, o Lâmina Mortal.

Chieng Lao estava orando para que Sukon Godin os ajudasse a derrotar os sombras desde o momento em que Toshiro disparou a primeira flecha que matou o sombra caído sobre as águas do riacho. Apesar de não ter feito seu pedido com o fervor costumeiro por acreditar que o Gigante de Bronze não precisaria ser incomodado para derrotar algumas figuras estranhas vestidas de preto, o deus dos Viajantes já sabendo o que estava por vir começou a formar a tempestade sobre o local da batalha.

- Ele tem um ponto fraco. – Sussurou Mao Siu para aos demais já empunhando sua katana.

- Apesar de conseguir expulsar maus espíritos, meus poderes não funcionam contra ele. – disse Ho Kazaoke, o Servidor.

- Também não vejo como derrotá-lo. – disse Toshiro com o arco retesado e uma flecha pronta para ser disparada rumo ao olho da criatura.

- Um Viajante não pensa no ponto fraco do inimigo. Ele é o ponto fraco do inimigo. – Chieng Lao sorria ao dizer essas palavras como se estivesse sabendo de algo que os demais desconheciam.

- Ele pensa que não pode ser derrotado, esse é seu maior ponto fraco. Fora do plano dos tormentos ele é tão vulnerável quanto qualquer um de nós, mas ainda assim pensa que pode nos derrotar sem esforço. Vamos usar isso contra ele.

Todos acenaram com a cabeça que concordavam com a idéia. Afinal, parecia ser de fato a única maneira plausível de derrotar uma fera inteligente com o tamanho de três tireses adultos. Antes de todos partirem para cima da criatura, o viajante fez um último pedido.

- Quando começar a chover fujam para a serra. É a nossa única chance de vencer, confiem em mim.

Os demais já estavam acostumados com os pedidos misteriosos de Chieng Lao, mas esse realmente era bastante excêntrico. Por acaso o grito do Rei Sombra havia feito com que ele enlouquecesse? E mesmo notando a descrença aparente nos rostos de seus companheiros, ele repetiu:

- Fujam para a serra, é tudo o que eu peço.

A criatura emitiu mais um rugido ensurdecedor antes de sair correndo em disparada na direção dos quatro tireses. Os trinta passos de distância entre ela e eles parecia ter diminuído tamanha a velocidade com que a fera se movia. Ela corria aos saltos e em tempo de três respirações já estava no mesmo local que nossos bravos tireses.

Apesar de menores, os quatro tireses eram bastante ágeis e conseguiram desviar e correr do ataque repentino. Era com certa dificuldade que os quatro tentavam coordenar a investida contra o Rei Sombra. Os quatro circundavam o alvo, tentando atacá-lo de todas as formas e com todas as armas possíveis, mas nada parecia surtir efeito. Por ter olhos na nuca, um ataque nunca pegava a fera de surpresa e os quatro braços se moviam tanto para a frente quanto para trás, permitindo que ela atacasse praticamente todos ao mesmo tempo.

Toshiro buscava uma forma de acertar uma flechada nos olhos da criatura, mas nas duas tentativas que havia realizado, ela conseguiu esquivar-se rapidamente. Pelo seu estilo de luta, Kazaoke não podia ajudar seus companheiros sem se expor ao risco de ser agarrado.

Mao Siu parecia estar no controle da situação, mas estava tenso pela inexperiência. Ficava sempre no flanco, aproveitando as investidas contra Kazaoke e Toshiro para atacar com sua katana. O único problema parecia ser uma espécie de couraça que envolvia o corpo do Sombra, o que impedia que a espada causasse algum ferimento.

Chieng Lao tinha se colocado próximo ao lago. Vez ou outra era possível ver faíscas em  seus olhos mas fora isso, mesmo um observador atento não poderia ver seu corpo se mexer. Estava tão concentrado que sua respiração estava muito fraca, seus olhos não piscavam, e suas mãos estavam estendidas imóveis para o céu. Somente sua boca se movia,  murmurndo alguma coisa.

Trovões ensurdecedores começaram a ribombar sobre o local da batalha. O som era tão alto e forte que a impressão que Kwao e Kin tiveram era que estavam no dentro de um sino de bronze que havia sido badalado. Kin foi quem primeiro percebeu que os guerreiros estavam ficando cansados e que misteriosamente o viajante nem era percebido pela besta.

Ventos fortes sacudiram as árvores e Kwao ficou apreensivo. Kin parecia estar se envolvendo demais com o ânimo da batalha e não conseguiria impedi-lo de descer a serra, caso por impulso ele saltasse e descesse correndo o paredão de pedra. Já havia visto isso acontecer algumas vezes e apesar de confiar no treinamento e na disciplina a que o discípulo havia se submetido, tudo era possível quando se tratava de Kin e brigas em geral.

A situação se tornava crítica a cada momento. Os três estavam exaustos e Lao não se movia. Mao Siu começava a duvidar da capacidade deles em vencer e já procurava uma maneira de fugir pela floresta.

Restavam somente cinco flechas para Toshiro. Cinco chances e depois se tornaria um alvo fácil, sem poder auxiliar seus amigos. Ele estava mais uma vez com o arco pronto para disparar, seus dedos doíam e sangravam pelo esforço contínuo de manter o arco puxado tantas vezes em pouco tempo. Havia escolhido trocar de lugar com Mao Siu, ocupando o flanco ao invés das costas.

A criatura vacilou e tropeçou, deixando um dos  olhos expostos para a flechada certeira do caçador. Ele disparou sem ânimo, sabendo que a fera desviaria. Infelizmente para ela, isso não aconteceu.

A flechada acertou um dos olhos em cheio, fazendo com que do seu brilho negro jorrase na direção de Toshiro um líquido vinho enegrecido, que se transformava em névoa aos poucos assumindo com formas de tireses que pareciam aliviados com o golpe e com a liberdade que lhes havia sido concedida.

Kabin urrava de dor e levou uma das mãos ao olho ferido para retirar a flecha. Os três tiveram a impressão de que ele havia ficado menor após o golpe e começaram a pensar que de fato seria possível vencê-lo.

Animado com a chance de atacar o Rei Sombra que ainda se contorcia, Kazaoke pulou sobre a fera, tentando atacar os dois olhos do rosto, mas dois dos quatro braços o agarraram no ar, segurando ao mesmo tempo seu pescoço sua perna. O Servidor contemplou os olhos negros que falavam diretamente em sua mente todas as formas com que sua alma seria torturada e dilacerada.

Kin tentou preparar-se para saltar e Kwao antevendo o movimento, imobilizou seu discípulo que enfurecido gritava:

- Me solte, me largue seu velho idiota! Não vê que eles precisam de ajuda!?

- Você está com a febre da guerra Kin, não podemos ajudar, nós viemos aqui para ver, ouvir e voltar e nada mais.

Com uma pequena torção no braço do jovem, o mestre terminou a imobilização e com o outro braço livre puxou uma agulha enfiando-a na base da nuca do rebelde aprendiz, que não conseguia mais se mover nem falar. Ele só piscava e olhava com raiva para o velho mentor, que continuava a olhar com calma a cena que transcorria um pouco abaixo, enquanto limpava a água da chuva que haviam molhado seu rosto.

Ela começou de repente com um estrondo. A chuva torrencial inundava a serra, e transformou a pequena queda d’água do riacho e uma caudalosa cachoeira, que começou a inundar o planalto.

Mao Siu e Toshiro souberam que era tarde demais para o Servidor quando ouviram o estalar de seu pescoço quebrando como um graveto e um brilho azul fugir de seus olhos para a boca do devorador de almas, que com essa refeição havia crescido novamente. Os dois lembraram do insano pedido do viajante e aproveitaram enquanto a fera se ocupava em absorver a essência do desafortunado Ho Kazoke para fugir em disparada, subindo a serra.

Lao já se movia agora. Estava feliz como sempre ficava quando chovia e mais feliz ainda porque sabia que dessa vez, o gigante de bronze estava ao seu lado. Percebeu que todo o planalto estava inundado próximo à cachoeira e sorriu ao provocar o Rei Sombra.

- Ei, você tem uma última chance para voltar para baixo da terra ou onde quer que seja o lugar que você deveria estar!

Daichega gargalhou. Alto como se hpa muito não houvisse coisa tão hilária. Com todas as bocas ao mesmo tempo e colocando os quatro braços para o alto e depois para baixo, virando-se para olhar quem seria o inseto capaz de tamanho desatino.

- Muito bravo tirês! E muito burro! Seus amigos fugiram, o que faz você pensar que pode de alguma forma me derrotar?

O Viajante ficou calado e encarou impassível o olhar ameaçador de Daichega, aguardando pacientemente a investida.

- Vou me lembrar de você após de refestelar na sua carne e usar sua pele como capa! – disse o Rei Sombra

Com um salto já estava a poucos passos de Lao, encarando o viajante e dizendo:

- Últimas palavras?

Um grito, uma explosão, uma voz que eterna clamou utilizando a boca do tirês:

- Desde o início dos tempos eu sou, Sukon Godin é meu nome e te digo Daichega que nenhuma tortura que você infligiu aos meus protegidos e adoradores poderá ser comparada ao sofrimento que você está prestes a sofrer!

Uma descarga elétrica desceu dos céus e subiu do chão, formando uma gaiola de raios que envolviam a criatura que gritava, berrava de dor e de raiva, ao passo que as descargas acertavam seu corpo e libertavam mais alguns escravos do jugo do Rei Sombra. Alguns saiam livres pelo espaço enquanto que outros eram puxados automaticamente para baixo, rodopiando e adentrando o plano dos tormentos.

Ao final somente o espírito do Sombra havia restado, ainda isolado pela prisão elétrica que gritava, com os olhos injetados de fúria e insanidade:

- Eu sabia! As profecias estavam certas, você Chieng Lao, você viajante arauto de Sukon Godin será a ruína de Shiang! Nos veremos ainda, eu juro!

A jaula de raios começava a subir em direção às nuvens, que se abriam para um espaço vazio, escuro e eterno que se fechou logo após a entrada Daichega Kabin, sentenciado ao isolamento completo pelo Gigante de Bronze.

Chieng Lao caiu extenuado ao chão, mal respirando, enquanto as nuvens se dissipavam e o brilho da lua começava a iluminar a noite por detrás delas.

Conto: Batalha em Montes Verdes – Parte 1 / Aventura: Nas Cavernas da Loucura

Postado em Contos / Tales, Notícias / News em 27/08/2009 por leonardoandrade

O Sol estava quase se pondo a oeste das Terras de Shiang, colorindo o céu de laranja e violeta, contrastando com as poucas nuvens que resistiram aos ventos fortes do verão. A água cristalina descia o riacho que delimitava o final dos domínios do imperador, desviando das pedras e seixos cobertos de limo, enquanto balançava a vegetação rasteira que crescia nas margens.

Kwao Zao caminhava em direção à fronteira, honrando a missão que lhe  havia sido confiada, apesar de ter pensado por alguns instantes no motivo que levaria o próprio Shiang a solicitar que dois Garras de Tigre, lutadores leais ao imperador, realizassem uma ronda rotineira próximo à divisa com a floresta dos Símios.

- Falta muito para finalizarmos nossa tarefa mestre? – perguntou Kin Zao, tirês que aparentava não mais que 25 anos, sobrinho de Kwao, enquanto colhia do chão um pedaço de mato e o colocava no canto de sua boca.

- Você se lembra do que falamos sobre a tarefa do Garra de Tigre, Kin?

- Sim mestre, eu só estava querendo saber…

- Se você teria tempo para retornar para a cidade e passar pela Casa de Chá dos Godos para terminar sua noite se fartando com as belas tiresas e jarros e mais jarros de saquê!

O mestre deixava transparecer um visível descontentamento com o aprendiz, que não passou despercebido pelo rapaz. Kwao, que aparentava ter passado por várias batalhas em seus 52 anos, já havia algum tempo, estava tentando endireitar seu incorrigível sobrinho Kin, que era notoriamente um ótimo lutador e beberrão.

O jovem, que vinha dedicando-se a esses dois talentos, desde que seu pai faleceu em circunstâncias misteriosas, enquanto montava guarda próximo da fortaleza do imperador, já estava começando a cansar-se da vida boêmia e resoluto, entregou-se ao treinamento do mestre Kwao.

- Peço desculpas mestre, meu comportamento não foi adequado.

- Agora, qual é a tarefa do Garra de Tigre?

- Servir a Shiang, sem se importar com sua própria vida, ser os braços do Imperador onde ele não possa estar, ser seus olhos durante a noite escura. Sua espada é tão forte quanto sua vontade, sua robustez tão rígida quanto sua honra, seu coração não teme mal ou sombra e espalha a justiça.

- Você decorou as palavras bem jovem Zao, mas será que seu coração compreende a extensão do propósito de ser parte da elite da guarda do Imperador?

- Meu coração está aberto para compreender mestre, e creio que o dia virá em que Shiang me concederá a graça de compreender essas palavras.

- Muito bem, muito bem. Você prestou atenção em algo de estranho no lugar onde estamos?

- Na verdade não mestre, tudo está calmo e pacífico por aqui.

- Exato, pacífico demais. Ao entardecer, nenhum lugar próximo a selva da divisa é pacífico.

Observando mais calmamente o céu, era possível perceber grandes lufadas de vento levando poeira colina acima, acompanhando o riacho e misteriosamente desviando em direção à floresta, como se em pleno ar houvesse uma barreira invisível, que estivesse fazendo com que o vento virasse à direita ao invés de seguir seu caminho natural.

Ambos perceberam o estranho fenômeno, mas foi o mestre que calmamente dirigiu-se ao riacho, acercando-se da água e agaixando para sorver um gole dela. O primeiro gole foi farto, dado para saciar a sede de uma tarde toda de caminhada debaixo do Sol escaldante do verão. O segundo gole foi dado com uso de um movimento semelhante a um ritual no qual seria possível conversar com a água e obter alguma informação dela.

Kwao demorou-se com água na boca, realizando uma longa e minuciosa análise sobre o que aquele punhado de líquido tinha a dizer. Não há nas Terras de Shiang olfato e paladar mais apurado que o de um guarda imperial, uma vez que sua sobrevivência depende de reconhecer o cheiro do perigo ou o gosto do veneno, é fácil para a língua bem treinada descobrir muitas coisas.

O pupilo aproximou-se do mestre exclamando:

- Ótima idéia, estou morrendo de sede!

Enquanto Kin bebeu dois grandes goles, Kwao finalizou seu veredito cuspindo o líquido fora:

- Sangue na água, provavelmente de alguém a uma centena de passos riacho acima.

- Sangue mestre?! – exclamou o discípulo enquanto cuspia freneticamente, limpando boca e língua nos braços. Isso tem algo a ver com a barreira que está fazendo o vento desviar?

- Não é uma barreira, Kin. O vento está com medo de passar próximo a algo ou alguém que está no topo dessa colina.

A tarde avançava e mestre Kwao começou a pensar no risco que haveria de ser surpreendido por alguma força poderosa o bastante para dobrar o vento. Só de imaginar que algo tão forte pudesse estar tão perto dele e de seu discípulo fazia com que seus instintos de sobrevivência começassem a ficar mais e mais aguçados, aumentando sua percepção do mundo ao seu redor.

Sua mente pouco a pouco se preparava para a batalha, já enretesando seus músculos e deixando-o mesmo que inconscientemente em posição de combate. Sua mente trabalhava em um estratagema para verificar o que estava acontecendo sem que houvesse qualquer possibilidade de ser descoberto. Nesse ponto, a análise do terreno era crucial, pois era a única vantagem que os dois poderiam obter sobre a misteriosa força.

O ponto onde eles se encontravam era a base da colina, que se erguia à esquerda por cerca de 300 passos e terminava em um planalto, que continuava por mais 500 passos até o começo da serra dos símios, de onde talvez fosse possível observar o que acontecia em segredo. À frente existia o riacho que fazia fronteira com a mata e entrar mata adentro seria um problema, uma vez que este território não era muito conhecido por Kwao.

- Kin, nós vamos dar a volta na colina, e subir a serra dos símios, de onde poderemos ver o que se passa lá em cima.

- Mestre, nós somos guardiões do imperador, por que não subir a colina? Nós dois juntos seríamos imbatíveis!

- Nossa missão é verificar o que está acontecendo na fronteira, retornar para o castelo e relatar o que vimos. Não haverá qualquer confronto hoje, entendido?!

- Sim mestre Kwao.

- Agora vamos, temos pouco tempo antes que escureça, e precisamos da luz para enxergar o que está havendo.

Ambos seguiram correndo, circundando a colina onde a  suposta batalha estaria ocorrendo e em pouco tempo chegaram à base da serra. Seria uma subida difícil até uma posição que possibilitasse a visão perfeita do planalto, pois o caminho era formado de pedras pontiagudas mas as pernas treinadas de ambos tireses galgavam sem dificuldade as pedras que formavam o caminho até o ponto de observação.

Kin pensava consigo que era um desperdício estar tão próximo a um local de batalha e não participar do combate. Em todos os ensinamentos de seu mestre, o jovem discípulo tentava encontrar uma motivação para  “disciplinar com a justiça” conforme as palavras do próprio Kwao todos aqueles que desobedeciam as leis ou de alguma forma os desejos do imperador.

Era perceptível sua ansiedade, bem como sua frustração. Ambos os sentimentos, apesar de antagônicos eram plenamente justificáveis. Nunca havia visto seu mestre preocupado como vira hoje, a turbulência emocional do velho lutador era tão intensa que suas passadas e respiração já ganhavam um ritmo mecânico, subindo a serra como uma locomotiva que não pode ser parada. Toda a preocupação de Kwao deixava Kin extremamente apreensivo porque era quase certo que o conflito ocorrendo no planalto abaixo deles tinha proporções nunca antes presenciadas pelo jovem tirês.

Por outro lado, Kin estava muitíssimo frustrado devido à impossibilidade de adentrar no combate. Havia nele a certeza e o controle obtido pela disciplina do treinamento que o compeliam a seguir as ordens do imperador mas por outro lado, seu instinto era extremamente impulsivo, característica essa que para um estudioso dos hábitos e comportamentos dos tireses ficaria claro e evidente mediante a simples observação das listras vermelhas na pelagem do bravo lutador.

Conto: O Senhor das Cavernas / Aventura: Nas Cavernas da Loucura

Postado em Contos / Tales, Notícias / News em 20/07/2009 por leonardoandrade

O servidor Ho Kazaoke acordou assustado naquela manhã. Era raro ter pesadelos, mas havia sonhado com sua morte. Pulou para fora da cama e foi fazer seu treinamento e sua meditação.

Repetiu as manobras básicas de sua arte marcial, O Caminho da Luz. Lembrou-se das palavras de seu mestre dizendo “Saiba cair. E saiba levantar-se tão rápido”. Começou mais uma série de rolamentos, que eram difíceis de fazer com sua malha de dim.

Ao meditar entrou em contato com o espírito do lâmina mortal Chan Misen. Desde que havia encontrado este espírito na Dimensão das Cinzas, era a primeira vez que via Chan Misen feliz. Perguntou então a ele:

- Após três dias de árduo treinamento, acho que hoje será o dia pelo qual você vem esperando, Chan Misen. Estou certo?

- Pode estar certo sim, meu amigo servidor. Apesar de não descansar mais como os vivos, ao descansar sonhei, ou melhor dizendo, tive uma visão – disse o Lâmina Mortal.

Ho Kazaoke sorriu também, deixando pra trás as lembranças da noite anterior. Já era hora de Mao Siu, o aprendiz de Chan Misen aprender a utilizar o poder mágico de sua espada. O próprio Mao Siu estava ao alcance da visão do servidor, aguardando seu treinamento.

As últimas palavras do servidor indagadas a Chan Misen foram:

- Onde será o treinamento de hoje lâmina mortal?

- Esse será um longo dia amigo. Não sei ao certo quando o ensinamento final será passado, mas nossa jornada começará em uma fazenda perto daqui.

Ho Kazaoke se levantou e pediu para que Mao Siu se aproximasse. Rapidamente o jovem lâmina mortal se apresentou. Enquanto isso, Chan Misen já estava caminhando a frente. Assim que Ho Kazaoke começou a seguí-lo, Mao Siu também o fez.

O caminho que fizeram pela Cidade de Pedras, foi bem extenso. Atravessaram a cidade vindo do lado leste até o lado oeste, passando por diversos bairros e passando próximo a Acrópole, a parte central e mais alta da cidade. Passaram pelas construções de pedras centrais e foram na direção da fazenda coletiva do Shógun. Mas não passaram por essa área, a margearam até encontrar uma pequena fazenda na direção da floresta dos símios. Chegaram a estas terras no meio da tarde.

Chan Misen disse ao servidor:

- Procure pelo caçador que vive nestas terras, e peça para ele te levar até a mina onde existia a antiga prisão.

O servidor ao ouvir isso, disse para Mao Siu:

- Já esteve aqui antes Mao Siu?

- Já sim senhor. Estive aqui com meu mestre quando comecei meus treinamentos, há uns 4 anos atrás. Se me lembro bem tem um caçador de nome Miazumi, que mora nestas terras.

- É por ele que devemos procurar.

Ao terminar a frase, avistaram o caçador e outro tires que parecia ser um Viajante. Eles pareciam ter acabado um funeral, pois o corpo de um tires e de um godo haviam sido colocados em uma pira de madeira.

- Venho em paz – disse o servidor aos dois tireses.

O caçador cabisbaixo olhou em direção aos dois e disse:

- Podem se aproximar.

Durante quase uma hora o jovem lâmina mortal e o servidor escutaram o bizarro relato do ataque da aberração à fazenda, e a heróica intervenção do viajante Chuva Gélida, que foi morto pela criatura. Toshiro Miazumi também fez uma honrosa menção ao seu godo, que havia sido amigo por anos e que também fora morto no combate.

Após o servidor e o jovem lâmina mortal mostrar que sentiam a morte dos companheiros, Ho Kazaoke perguntou ao caçador:

- Posso pedir para levar-nos até a antiga mina, onde existe o lacre da prisão?

Toshiro Miazumi arregalou os olhos. Se lembrava do shógun, aliado aos sombras e de sua escapada mágica daquela mina. Olhou para os presentes e disse:

- Tenho de contar algo a vocês. Após levar seu mestre – ao olhar para Mao Siu – eu estive nesta área e descobri algo terrível.

- Você havia me dito exatamente isso anteriormente caçador. Mas não disse o que realmente viu. O que aconteceu por lá?

Toshiro contou sobre os guerreiros cinzentos, tireses aliados ao sombras que estavam de guarda na mina. Contou como conseguiu eliminar um deles, e como o outro fugiu. Não disse como entrou na mina, mas que lá dentro se deparou com o shógun da cidade, carregando um artefato mágico. E que ele sumiu, após sons metálicos serem ouvidos.

A expressão na face de Mao Siu era de completa surpresa. Mas apenas o servidor pode ver a expressão de ódio e tristeza de Chan Misen. Ele comentou ao servidor:

- Foi Kao Ling que me matou. Me lembro de tudo agora.

O Viajante Chieng Lao estava chocado com tais afirmações. Antes que pudesse se pronunciar, escutou a voz do Deus-Trovão em sua mente:

- O testemunho feito é de fé meu filho. Sigam com pressa a este lugar.

Chieng Lao disse a todos:

- Eu Raio Mortal, servo do Deus-Trovão peço para que nos apressemos em ir a este lugar.

Logo todos se recuperaram e se puseram a caminho da mina abandonada. Chegaram a entrada com dificuldades, no inicio da noite. O caçador comentou:

- Vamos fazer alguns archotes. Mesmo que fosse de dia iríamos precisar deles por lá. Cuidado com aranhas gigantes e centopéias venenosas.

Ao entrarem na caverna se depararam com os restos mortais de um guerreiro cinzento dos sombras. O físico do tires transformado pela magia era avantajado, mas agora era somente um cadáver sendo comido por centopéias venenosas. O caçador pediu para que não se aproximassem e continuou o caminho, liderando os outros heróis.

Passaram por vários corredores, e em determinado momento Chan Misen disse ao servidor:

- Servidor, estamos sendo seguidos.

Ho Kazoke fez sinal para que todos parassem e disse aos seus companheiros que estavam sendo seguidos. Após dizer isso, o caçador fez um sinal indicando que tentaria cerca-lo por trás, apagou seu archote e começou a se guiar apenas pela visão noturna. O viajante Raio Mortal ficou parado e pediu para que os companheiros seguissem.

O jovem lâmina mortal começou a andar, mas o servidor colocou a mão em seus ombros e disse:

- Mao Siu, não devemos seguir.

Um zunido de flecha foi escutado, e em seguida uma despedaçar da madeira em pedra. O viajante disse:

- Fique parado ou eu acabo com você!

Naquele instante Ho Kazoke viu que além de uma pessoa que se escondia nas sombras da caverna, havia um espírito também. E ele estava controlando a pessoa.

O servidor disse em voz alta:

- Que ninguém mais faça um ataque. Quero conversar com você, espírito maligno que controla o vivo que se esconde nas sombras.

Uma voz rouca veio da escuridão e disse:

- Quem se atrave a me ver e a me desafiar, o maior dos Senhores da Caverna?

- Nenhuma prisão é eterna -  retrucou o servidor.

- Como não, e nesse instante um tires se aproximou do archote que estava sendo segurado por Mao Siu, ao lado do servidor.

O tires que estava nas sombras vestia uma roupa pesada que deveria ocultar uma armadura. Tinha um tapa olho e não tinha uma mão. Em seu lugar tinha uma lâmina, muito bem trabalhada. Apenas um ladrão teria uma mão amputada, mas parte de seu vestuário e vários detalhes destoavam naquele estranho ser. Continuou dizendo:

- Eu estou trancado por mais de dois séculos naquele lugar desumano. Eu e os desafortunados que ali estão.

Na direção à qual os heróis estavam indo, Ho Kazaoke pode sentir a presença de muitos espíritos, carregados de ódio e maldade. O caçador disse:

- Servidor ele está na minha mira.

Ho Kazoke disse aos heróis:

- Não derramem mais sangue.

O estranho tires caolho disse:

- Estive aqui preso, mas aprendi muitos segredos, com todos que aqui estão. Aprendi a fazer magias, como controlar os vivos. Aprendi as canções proibidas dos sombras que abrem os caminhos pelo intangível…

- Liberte este tires vivo e vamos conversar…

Nesse instante os espíritos malignos começaram a tentar controlar os vivos, dizendo palavras em suas mentes. O servidor disse em voz alta:

- Saiam daqui todos vocês, criaturas do mal!

E nesse instante uma luz mágica se fez dentro da caverna, sendo emanada pelo servidor. Os heróis por breves momentos viram os espíritos correndo, pois o brilho cegava e machucava. Apenas dois deles permaneceram ali, o espírito que controla o estranho tires e o lâmina mortal Chan Misen.

- Maldito! – disse o tires caolho, enquanto a lâmina que ocupava o lugar de sua mão começava a ficar incandescente.

Naquele instante o mestre lâmina mortal Chan Misen se concentrou e disse mentalmente ao seu discípulo para usar a espada.

Mao Siu rapidamente a sacou, e deixou que um brilho azulado lançasse um jorro de ar muito poderoso atingisse em cheio o tires levando-o ao chão.

Ho Kazaoke pode ver o espírito do lâmina mortal ascendendo ao céus envolto em luzes. Após um suspiro concentrou-se e utilizou sua magia para subjulgar o espírito que restava, dizendo:

- Afasta-te desse tires e conte-me o que devo saber, vil criatura.

Dominado pela magia do servidor, o tires disse:

- Maldito seja, servo do bem. Não consigo me mexer…

- Acabe com seu sofrimento logo!

O espírito contou que era um sombra poderoso, e foi traído e jogado na prisão. Como detinha alguma influência mesmo naquele lugar, acumulou alguns bens e segredos. Continuou apegado a sua prisão mesmo quando Kao Ling, o shógun da cidade rompeu o antigo lacre colocado pelo imperador a duzentos anos atrás. Disse a Kao Ling algumas das canções que aprendeu, pois este assim como o shógun tinha o poder de subjulgar os espíritos.

O servidor fez uma prece e mandou o espírito para longe dali. Naquele instante todos puderam ver as feições do tires caolho mudarem: seu olho recobrou cor e sua feição não era mais tão rude. Assim que viu que estava cercado, disse aos que ali estavam:

- Sou ‘O Caolho’, não sei quem são vocês e que loucura que me acometeu, mas se entrarmos em combate, farei vítimas. Deixe-me ir embora.

- Acho você muito presunçoso Caolho – disse o caçador com arco engatilhado.

Aos olhos de todos o tires caolho desapareceu.

Ho Kazoke disse:

- Ainda consigo vê-lo Caolho. Apenas seu corpo fica invisível para mim.

O Caolho respondeu antes de começar a correr:

- Não tenho chance contra todos. Mas a Cúpula saberá o que ocorreu aqui…

O caçador Toshiro Miazumi lançou sua flecha na direção de onde acreditava estar o tires. Mas a flecha, nem o Caolho foram encontrados.

Após a situação se acalmar, Ho Kazaoke parabenizou o agora novo Lâmina Azul, e disse que seu mestre se encontrava em paz.

Por um breve momento, todos os heróis ficaram felizes com o efêmero desfecho.

Conto: Despertar do Lâmina Mortal / Aventura: Nas Cavernas da Loucura

Postado em Contos / Tales, Notícias / News em 09/07/2009 por leonardoandrade

samurai

O leve despertar da morte não existe, diriam os mais céticos afirmativos, porém tenho que discordar de tal observação. Como de um sonho embaçado e confuso, sem grande coerência sobre a realidade, meus olhos se abriram novamente, mas o que eu encontrei foi ainda mais irreal do que os delírios de um louco. O que eu encontrei foi absolutamente nada.

Como se uma cortina de sangue corresse diante de meus olhos, o céu carmesim agredia minhas pupilas através de um pequeno vão à minha frente, torturando minha visão e quase clamando para que meus olhos permanecessem fechados. Pequenos flashs incidem em minha mente, golpes de espada rasgam minha pele enquanto tudo se torna cinza e gélido. Um rosto zomba de minha agonia, distante e desfocado para que possa reconhecer prontamente, somente o som de suas risadas me revelam que não era uma simples miragem. Flechas voam ao meu lado e eu tomo os céus na busca de uma melhor visão dos eventos, o cheiro de orvalho e lixo misturam-se ao cenário, era mais uma noite em algum subúrbio da cidade, mais uma noite de loucuras para os que vivem sob o julgo da obediência.

O presente mostra-se tão incerto quanto as lembranças, um cenário imutável de um horizonte vazio pela fresta de uma porta, como um quadro inacabado ao qual observo durante longos minutos. A noção de tempo está em sincronia com tudo o resto, os minutos que penso estar acordado podem ser segundos, assim como os segundos de lembranças vagas e dolorosas podem ser horas, tudo está errado e ainda assim nada muda para consertar tais falhas. Uma certeza me resta, por mais insano que possa estar, eu ainda sou Chan Misen, o Lâmina Mortal.

Depois de muito tempo de concentração e de dúvidas sobre estar acordado ou não, percebo que estou acorrentado em uma parede de frente uma porta que possui um pequeno orifício pelo qual incide uma forte luz roseada, tornando a sensação de cansaço ainda maior. Não há mais duvidas de que sou prisioneiro nesse estranho lugar, porém quem seria meu algoz e qual seria esse estranho lugar? Respostas difíceis de serem encontradas em minha atual condição, mas de grande importância se pretendo restabelecer minha mente e tentar formular um jeito de fugir.

A primeira idéia te me passou pela cabeça foi de que era um prisioneiro nas cavernas antigas, onde os sombras aprisionavam suas vítimas para a lenta e agonizante morte silenciosa, onde ninguém encontra salvação ou fuga, onde as almas se congelam e perambulam pela eternidade de sofrimento e caos. Tento me focar em meu passado, porém as lembranças são facilmente confundidas e mescladas com delírios intermináveis, sinto o pesar do meu corpo sendo cada vez mais exercido em meus punhos, as algemas como a cortar minha pele e o frio do aço congelando meus ossos, a agonia de ser abandonado, trancafiado e esquecido, pior do que a morte é somente o terror de viver esquecido e se esquecer de si mesmo.

Os dias não podem ser contabilizados em minha situação, a inércia do cenário exterior é imutável e a sensação de que tudo se apaga passa a ser cada vez maior. Tento me concentrar para lembrar do passado, buscando alcançar lembranças confiáveis que possam trazer algumas respostas. As loucas gargalhadas e os cortes em meu corpo não deixaram de ser vívidos em momento algum e agravam ainda mais minha sensação de injúria, o que me faz mudar o foco para tentar esquecer essas imagens. O esforço descomunal me valeu uma breve recompensa, quando uma imagem me veio à mente, agora eu já sabia ao menos a importância dela. Eu era um protetor do grande Imperador.

Despertei de mais algum momento de pesadelos, o suor escorrendo pela minha face iluminada pelo céu rosado da porta. Esse sonho, apesar de ser doloroso e desconexo, conseguiu trazer mais algumas pistas do que realmente acontecia comigo no momento. Uma batalha em um cenário escuro, alguns arqueiros disparando contra mim e a figura negra, imponente diante de mim, a desferir golpes em minha direção, meu sangue a escorrer, as risadas inebriantes, a espada caindo de minha mão, meus olhos se fechando, somente o frio e o cheiro podre das vielas da cidade, somente o fim de uma existência. Eu não estou preso, eu estou morto ou bem próximo disso, mas talvez seja somente uma loucura e nada disso ocorrera.

Ao que pensei ser mais um delírio de minha mente, uma voz começou a me chamar ao longo, vinda de lugar algum mas como se estivesse ao meu lado, dentro da minha cabeça e em todos os lugares:

- Não deveria estar aqui Chan Misen, este não é o local para um Lâmina Mortal.

- Ninguém deveria estar aqui – respondi – nada disso pode existir. Quem é você que me mantém preso nesse cenário irreal?

- Nada o mantém preso, bravo guerreiro, somente você mesmo.

- Enigmas demais para um tires à beira da loucura, deveria ser mais direto.

- Ao contrário do que pensa, eu não estou aí contigo, estás sozinho, ao menos por enquanto.

- Como posso estar vivo, estando preso aqui por tanto tempo sem alimento ou água?

- Não existe tempo onde você está guerreiro, nada existe, tampouco sua prisão.

Tudo isso parecia loucura a ele, um guerreiro lâmina mortal, treinado à exaustão para alcançar a perfeição em combate. Mas a perfeição exigia uma mente limpa, plena e rápida, o que não parecia acontecer agora. A voz parecia real, mais real que tudo o resto, porém negar seu cárcere era algo difícil de acreditar ao sentir os grilhões em seus pulsos. A dor em seu corpo provava o longo martírio pelo qual passava, ignorar tal fato seria maior loucura do que uma voz onisciente. Tentei questionar a respeito:

- Como poderá me provar que nada dessa prisão é real?

- Não posso, você que deverá provar por si só.

- Isso é loucura, não há outra explicação.

- Só será loucura se desejar, tudo o que está a sua volta foi sua criação.

- Porque eu desejaria estar preso, maluco? Penso se não estou delirando e discutindo comigo mesmo…

- Você não quer estar preso, mas é como se sente, preso a algo. Você só irá delirar se não acreditar em si mesmo, em seu treinamento. Limpe sua mente, procure o foco do que é importante.

Deveria fazer isso, seguir as instruções de sabe-se lá quem? Talvez do inimigo negro que me feriu com a espada, zombando de sua dúvida. Por outro lado, meus instintos diziam que havia sentido em tudo que fora dito e que a meditação poderia me ajudar a encontrar respostas. A voz parecia saber sobre meu pensamento e permanecia calada durante todo o tempo. Essa era a hora de mostrar que anos de treinamento não foram em vão. Clareei minha mente e me foquei na figura do imperador, no meu dever como lâmina mortal e nos meus códigos de conduta.

Quando notei, estava sentado em posição de lótus em uma grande paz de espírito, sentado sobre um terreno acinzentado e estéril a se perder de vista, nada restara do que vivenciara durante longo tempo, somente o céu róseo e a sensação de que estava perdido em algum lugar que não conhecia. A voz tornou a se manifestar nesse momento, aparentemente satisfeita por provar seu ponto de vista:

- Percebe agora que nada era real, tudo era fruto de sua mente?

- Sim, entendo agora. Só não onde estou e o que faço aqui.

- Você está preso em uma dimensão inferior chamada Dimensão das Cinzas Chan Misen, ou melhor, sua alma está presa aí. Seu corpo fora destruído no Plano Terrestre.

- Então boa parte de meus sonhos era real?

- Todo ele era real, só não estava organizado para que você conseguisse entender corretamente o que acontecera.

- Entendo. Mas quem é você e porque está me ajudando? Onde está você?

- Agora que está lúcido, posso me apresentar corretamente. Eu me chamo Ho Kazaoke, sou chamado de Servidor, consigo ter contato com os outros planos e apesar de estar conversando com você agora, eu estou vivo e no Plano Terrestre.

- Porque eu estou aqui? Cumpri meu dever como guerreiro, deveria estar em um plano superior.

- Você quase cumpriu seu dever, assuntos pendentes restaram.

- Não entendo, o que poderia ter deixado para trás.

- Um discípulo.

Nesse momento, mais uma série de imagens passaram pela minha mente, o rosto de um jovem tires seguindo meus passos, aulas sobre combate, meditação e conduta em um pequeno salão revestido com simplicidade e beleza, tudo isso um pouco distante, mas algumas palavras escaparam como um suspiro de meus lábios:

- Mao Siu…

- Sim, o treinamento de seu aprendiz não foi concluído e você deve fazê-lo.

- Mas como isso será possível nesse momento?

- Não se preocupe, tenho uma solução.

- E qual seria o grande benefício de tamanho sacrifício?

- Vingança.

-Vingança não é o triunfo de um guerreiro digno.

- Não a vingança velada, incauta ou maculadora. Mas sim a realização de sua missão no Plano Terrestre, um acerto de contas aos que tentaram limitar seu caminho.

- Sim, o treinamento de meu jovem aprendiz, Mao Siu.

- Ele irá terminar o que você começou, cumprir o dever de qualquer lamina mortal. A proteção do Imperador pelo caminho da honra.

Era certo que tal servidor conhecia perfeitamente o comportamento de Misen, porém a distância do Plano Terrestre era um empecilho a ser superado. Ho Kazaoke estava disposto a ajudá-lo nessa difícil tarefa e para isso seria o portador do espírito do velho lamina mortal.

Mao Siu estava em seu pequeno cômodo no Templo de Pedras, meditando e orando para que a transição de seu mestre fosse o mais tranqüila possível, ao mesmo tempo lamentando a perda prematura de seu querido instrutor e amigo. Como seria seu caminho de agora em diante, perdido em uma terrível trilha selvagem sem ter a menor noção da direção a ser seguida. A não conclusão de seu treinamento era um tormento a sua alma, sentia-se incompleto e despreparado para arcar com sua função de Lâmina Azul.

Nem mesmo ainda superara encontrar o corpo de seu mestre nos arredores da cidade, com inúmeros ferimentos e o olhar selvagem de um combatente heróico. Estava certo de que enfrentara diversos adversários, pois seu mestre era um exímio espadachim e somente um grande mestre o venceria em uma luta justa. Tais adversários são raros no mundo de hoje e uma lista destes seria restrita a pouco mais de cinco nomes. Porem tentar levantar tais dados e relacionar com o cenário de combate era irreal e ofensivo a um jovem e inexperiente espadachim como ele e provavelmente envolveria nomes que este venerava desde a infância.

Sua tina de chá esfriava diante de seus olhos, turvando seus olhos com a fumaça ascendente que percorria seu trajeto sem a menor atenção ou admiração de seu detentor no cômodo. A sagrada espada de seu mestre repousava em seu colo sendo segura pelo punho forte do guerreiro, afando a guarda da mesma e recordando dos momentos de alegria, dor e esforço que fora sua vida até aquele dia. Jamais pensara que o sofrimento seria maior ao encontrar o corpo de Chan Misen prostrado em um beco sem importância ou sem explicação como fora tal combate.

Pequenos murmúrios começaram a chegar ao cômodo em que Mao Siu se encontrava, despertando-o de seu transe. O silencio era quebrado por um pequeno homem que jamais vira na vida e a primeira idéia que lhe passou a cabeça fora a imagem de um comerciante ou mercador andarilho a vir oferecer produtos aos presentes no templo. O sentimento de fúria invadia seu corpo, ao pensar que o mundo seguia seu trajeto mesmo com a perda de uma pessoa tão ilustre quanto seu mestre, como se sua partida não fosse sentida por mais ninguém além dele.

O mais estranho foi quando jovens serventes do templo o conduziram à sala em que ele se encontrava, como se única e exclusivamente a atenção do pequeno mercador fosse toda direcionada a ele e mais ninguém. Aquilo lhe pareceu deveras estranho, porém ainda o chocava ao pensar que seria ofertado algum produto. Mas o semblante do homem era deveras sério e ocultava algum mistério. Após um cumprimento formal entre os presentes na sala, o tirês se sentou e se apresentou:

- Mao Siu, permita me apresentar, meu nome é Ho Kazaoke, um simples servo dos desígnios misteriosos do espírito e estou aqui representando Chan Misen.

Ao ouvir o nome de seu mestre, ao qual o corpo ainda repousava na sala ao lado sendo preparado para a cerimônia fúnebre, um sentimento de ódio se apossou de Mao Siu, de forma que este apertou firmemente a bainha da espada do guerreiro caído e puxou uma parte da lamina para fora da guarda, deixando à mostra o corte mortal refletir sobre um pequeno raio de sol que invadia o cômodo e incidia sobre a mesma.

- Não ouse insultar o nome sagrado de meu mestre em minha presença, ou irei tirar sua vida no mesmo instante.

Uma mudança de feição se operou nesse momento em Kazaoke, como se uma terrível dor o afligisse ou estivesse em total pânico diante da lamina. Mas em seguida, o que Mao Siu presenciou o deixou estupefato por toda sua vida. O tirês se levantou, ficou em posição de guarda e o olhava incisivamente de cima para baixo, exatamente igual seu mestre o fazia nos seus treinamentos:

- Ouça o que Kazaoke tem a lhe dizer, pequeno Mao, pois ele e eu estamos diretamente conectados e irei lhe ajudar a cumprir sua promessa.

Ao ouvir tais palavras, idênticas ao modo como Chan Misen se dirigia a seu discípulo, e a postura adotada, naquele instante Mao Siu sabia que estava diante de seu mestre, seja como fosse. Guardou imediatamente a espada de volta à bainha e curvou-se dignamente diante da figura a sua frente. Os que observavam ao longe não entendiam o que estava acontecendo e ficavam surpresos com tal reação, porém o olhar de alegria de Mao Siu os deixara tranqüilos quanto a suas futuras atitudes imaginando que desta forma não teriam de preocupar com um ataque deste ao outro tirês diante dele.

- Não entendo como isso é possível, mas sei que está comigo novamente, Misen-Sama.

- Nosso tempo é curto e seu treinamento deve ser concluído o quanto antes. Serei breve em minhas explicações sobre o que ocorreu.

A rápida explicação mostrou-se rapidamente ineficaz e o dialogo entre os dois tireses prolongou-se durante horas, alcançando rapidamente o por do sol e até mesmo o principio da madrugada. Ho Kazaoke relatava as desventuras de Chan Misen desde sua ida ao estranho beco, a emboscada que sofrera por diversos ninjas e o duelo desleal que travara com Kao Ling, o Shogum traidor responsável pelo fim de sua existência no Plano Terrestre.

Olhares de surpresa por parte de Mao Siu eram constantes com o desenrolar da narrativa, as traições, o cenário desolador da carceragem imaginaria que Misen se viu preso, a libertação e a busca pelo fim de seu caminho. Repentinamente, Mao Siu percebeu que além de readquirir a sua missão de vida, possuía novos destinos para a sua existência, entre elas procurar o Imperador para alertar sobre a traição de Kao Ling e acima disso, confrontar a seu devido momento o infame Shogum pela restauração da honra de seu mestre.

No entanto, ainda muito seria necessário para concluir seu treinamento como lamina mortal para que possa utilizar a espada sagrada que pousava em suas pernas e para isso seria vital um envolvimento intenso de mestre e aluno nessa empreitada. Ho Kazaoke parecia extenuado depois de tamanha explicação, e por fim Chan Misen também o percebera sobre o esgotamento de seu interlocutor:

- Amanhã recomeçamos nosso treinamento ao alvorecer. Descanse esta noite para que possamos prosseguir em seu treinamento.

- Serei uma rocha durante a noite, para repousar, um vento sem cessar durante o treinamento e uma luz nas trevas até a noite seguinte.

- Que essa luz não esmoreça tão cedo, para clarear os dias sombrios que estão por vir.

Conto: Juramento Silencioso / Aventura: Nas Cavernas da Loucura

Postado em Contos / Tales, Notícias / News em 09/06/2009 por leonardoandrade

aberracao

Ainda não podia acreditar no que havia visto. Sem dúvida o shógum da Cidade de Pedras estava aliado aos sombras. Toshiro Miazumi se recordou de que na semana passada, havia ido até a mesma mina abandonada com um lâmina mortal e dois soldados até o lacre das antigas prisões. Teria ele ido além do lacre? Pensou em procurar outro herói amigo seu, um lutador Abraço de Krondai que vivia perto dali.

Estava perto do entardecer na fazenda, e Toshiro observou o horizonte. Viu que dois tireses se aproximavam da fazenda. Foi até seu godo, e em seguida partiu na direção dos tireses.

- Quem vem lá? – perguntou Toshiro aos forasteiros.

- Dois Viajantes. – respondeu o mais velho deles.

Toshiro sorriu. Também era devoto do Deus Trovão, e os Viajantes eram sempre bem recebidos em sua fazenda. Antes mesmo de se encontrarem, as primeiras gotas de chuva chegaram aos três. Os Viajantes que vinham sorrindo assumiram feições mais sérias. Toshiro olho pro céu, e nesse instante sentiu um forte vento, que traziam nuvens que fechavam os céus, quando disse aos Viajantes:

- Deus Trovão está trazendo a chuva para nós!

O mais velho deles se aproximou de Toshiro e colocando as mãos em seu ombro disse:

- Estamos aqui porque tem sido um devoto fiel. Por isso, apesar das forças do mal estarem contra você, viemos protegê-lo.

O godo de Toshiro começou a ficar ouriçado, indo na direção contrária a um pequeno bosque. O cheiro de terra molhada começou a mudar para um cheiro muito ruim. Algo estava vindo por vindo por trás das árvores.

- Caçador – disse o Viajante mais velho – deixe essa batalha conosco.

O caçador que estava portando apenas uma espada correu para a casa para pegar suas armas. O Viajante mais velho, de nome Chuva Gélida, pediu com descrição para que Chieng Lao cercasse a área das árvores por trás.

Chuva Gélida fitou as árvores, tentando localizar a fonte dos movimentos das árvores. Chieng Lao se esgueirava pelo lado, quando viu um vulto negro com arco mirando seu mestre. Foi então que gritou:

- Flechas!

Antes que uma flecha atingisse Chuva Gélida, seu corpo se transformou em água. A flecha o passou e atingiu o chão. Na seqüência uma enorme criatura disforme com enormes garras, surgiu do meio das árvores e correu na direção de Chieng Lao. Sua mera visão deixaria em pânico aqueles que a contemplassem. Era uma besta formada por corpos de criaturas mortas unidas por almas malignas. Na antiguidade as Aberrações eram criadas por magos lantros, mas nas últimas décadas os magos sombras aprenderam como realizar o ritual.

Aquela criatura fora concebida com um propósito: matar o Caçador Toshiro Miazumi. Ele era o único tires vivo que saberia sobre o lacre da prisão, e assim, sua morte seria a chave para um plano maligno sem rastros.

Chuva Gélida sabia o que o monstro representava, e voltou a sua forma normal o mais rápido que pode, ao tempo de ver Chieng Lao tornar seu nunchaku envolto em raios. Chuva Gélida gritou:

- Não lute próximo a ela Chieng Lao!

Era tarde demais. A chuva caia sobre Chieng Lao que acabara de acertar um bom golpe na criatura. Mas ela era muito rápida, e acertou com suas garras no peito de Chieng Lao, que fora arremessado para trás. Chuva Gélida se manteve sereno, e após uma prece a Sukon Godin lançou uma enorme bola de gelo na Aberração. Ao atingi-la a criatura urrou e antes de conseguir se virar na direção de Chuva Gélida, um vórtice de almas se desprenderam do corpo da criatura, chegando próximas a Chieng Lao.

Chieng Lao orou a Sukon Godin e como a dor era intensa em seu peito, utilizou  um dos poderes concedidos pelo Deus Trovão: pelo seu corpo começaram a passar vários raios, o que afastou as almas desgarradas, além de seu ferimento curar.

Irado pela bola de gelo, a Aberração soltou um urro e correu na direção de Chuva Gélida. Ele, ao se preparar para uma nova mágica, viu passar a seu lado Toshiro montado em seu godo e carregando uma lança. Toshiro fez um ótimo arremesso e acertou um dos braços do monstro, mas isso não impediu da criatura de alcançar o godo. Toshiro foi levado ao chão, mas não havia sido atingindo.  Seu godo não teve a mesma sorte.

Chuva Gélida agiu novamente e lançou um sopro de gelo no monstro. Logo em seguida tirou suas kamas das costas e esperou pelo monstro, que havia parado seu avanço em virtude da mágica. O combate teve inicio, e mesmo sem um dos braços e com muitos danos visiveis, a criatura atingiu um golpe mortal em Chuva Gélida, arrancando um de seu braços. Toshiro conseguiu se levantar e ver Chieng Lao gritando a Sukon Godin; depois viu um raio atingindo Chieng Lao e sendo redirecionado por este para o monstro. A Aberração fora levada ao chão, e novamente almas se desgarraram do corpo disforme da criatura, que havia sido derrotada.

Toshiro Muazumi e Chieng Lao chegaram a tempo de escutar as últimas palavras de Chuva Gélida, que deixava o plano terrestre com sua missão de vida cumprida:

- Achem o sombra que trouxe a Aberração… e que ele sinta a ira de Sukon Godin.

Um juramento silencioso foi feito naquele momento pelos dois heróis.