Conto: Batalha em Montes Verdes – Parte 1 / Aventura: Nas Cavernas da Loucura
O Sol estava quase se pondo a oeste das Terras de Shiang, colorindo o céu de laranja e violeta, contrastando com as poucas nuvens que resistiram aos ventos fortes do verão. A água cristalina descia o riacho que delimitava o final dos domínios do imperador, desviando das pedras e seixos cobertos de limo, enquanto balançava a vegetação rasteira que crescia nas margens.
Kwao Zao caminhava em direção à fronteira, honrando a missão que lhe havia sido confiada, apesar de ter pensado por alguns instantes no motivo que levaria o próprio Shiang a solicitar que dois Garras de Tigre, lutadores leais ao imperador, realizassem uma ronda rotineira próximo à divisa com a floresta dos Símios.
- Falta muito para finalizarmos nossa tarefa mestre? – perguntou Kin Zao, tirês que aparentava não mais que 25 anos, sobrinho de Kwao, enquanto colhia do chão um pedaço de mato e o colocava no canto de sua boca.
- Você se lembra do que falamos sobre a tarefa do Garra de Tigre, Kin?
- Sim mestre, eu só estava querendo saber…
- Se você teria tempo para retornar para a cidade e passar pela Casa de Chá dos Godos para terminar sua noite se fartando com as belas tiresas e jarros e mais jarros de saquê!
O mestre deixava transparecer um visível descontentamento com o aprendiz, que não passou despercebido pelo rapaz. Kwao, que aparentava ter passado por várias batalhas em seus 52 anos, já havia algum tempo, estava tentando endireitar seu incorrigível sobrinho Kin, que era notoriamente um ótimo lutador e beberrão.
O jovem, que vinha dedicando-se a esses dois talentos, desde que seu pai faleceu em circunstâncias misteriosas, enquanto montava guarda próximo da fortaleza do imperador, já estava começando a cansar-se da vida boêmia e resoluto, entregou-se ao treinamento do mestre Kwao.
- Peço desculpas mestre, meu comportamento não foi adequado.
- Agora, qual é a tarefa do Garra de Tigre?
- Servir a Shiang, sem se importar com sua própria vida, ser os braços do Imperador onde ele não possa estar, ser seus olhos durante a noite escura. Sua espada é tão forte quanto sua vontade, sua robustez tão rígida quanto sua honra, seu coração não teme mal ou sombra e espalha a justiça.
- Você decorou as palavras bem jovem Zao, mas será que seu coração compreende a extensão do propósito de ser parte da elite da guarda do Imperador?
- Meu coração está aberto para compreender mestre, e creio que o dia virá em que Shiang me concederá a graça de compreender essas palavras.
- Muito bem, muito bem. Você prestou atenção em algo de estranho no lugar onde estamos?
- Na verdade não mestre, tudo está calmo e pacífico por aqui.
- Exato, pacífico demais. Ao entardecer, nenhum lugar próximo a selva da divisa é pacífico.
Observando mais calmamente o céu, era possível perceber grandes lufadas de vento levando poeira colina acima, acompanhando o riacho e misteriosamente desviando em direção à floresta, como se em pleno ar houvesse uma barreira invisível, que estivesse fazendo com que o vento virasse à direita ao invés de seguir seu caminho natural.
Ambos perceberam o estranho fenômeno, mas foi o mestre que calmamente dirigiu-se ao riacho, acercando-se da água e agaixando para sorver um gole dela. O primeiro gole foi farto, dado para saciar a sede de uma tarde toda de caminhada debaixo do Sol escaldante do verão. O segundo gole foi dado com uso de um movimento semelhante a um ritual no qual seria possível conversar com a água e obter alguma informação dela.
Kwao demorou-se com água na boca, realizando uma longa e minuciosa análise sobre o que aquele punhado de líquido tinha a dizer. Não há nas Terras de Shiang olfato e paladar mais apurado que o de um guarda imperial, uma vez que sua sobrevivência depende de reconhecer o cheiro do perigo ou o gosto do veneno, é fácil para a língua bem treinada descobrir muitas coisas.
O pupilo aproximou-se do mestre exclamando:
- Ótima idéia, estou morrendo de sede!
Enquanto Kin bebeu dois grandes goles, Kwao finalizou seu veredito cuspindo o líquido fora:
- Sangue na água, provavelmente de alguém a uma centena de passos riacho acima.
- Sangue mestre?! – exclamou o discípulo enquanto cuspia freneticamente, limpando boca e língua nos braços. Isso tem algo a ver com a barreira que está fazendo o vento desviar?
- Não é uma barreira, Kin. O vento está com medo de passar próximo a algo ou alguém que está no topo dessa colina.
A tarde avançava e mestre Kwao começou a pensar no risco que haveria de ser surpreendido por alguma força poderosa o bastante para dobrar o vento. Só de imaginar que algo tão forte pudesse estar tão perto dele e de seu discípulo fazia com que seus instintos de sobrevivência começassem a ficar mais e mais aguçados, aumentando sua percepção do mundo ao seu redor.
Sua mente pouco a pouco se preparava para a batalha, já enretesando seus músculos e deixando-o mesmo que inconscientemente em posição de combate. Sua mente trabalhava em um estratagema para verificar o que estava acontecendo sem que houvesse qualquer possibilidade de ser descoberto. Nesse ponto, a análise do terreno era crucial, pois era a única vantagem que os dois poderiam obter sobre a misteriosa força.
O ponto onde eles se encontravam era a base da colina, que se erguia à esquerda por cerca de 300 passos e terminava em um planalto, que continuava por mais 500 passos até o começo da serra dos símios, de onde talvez fosse possível observar o que acontecia em segredo. À frente existia o riacho que fazia fronteira com a mata e entrar mata adentro seria um problema, uma vez que este território não era muito conhecido por Kwao.
- Kin, nós vamos dar a volta na colina, e subir a serra dos símios, de onde poderemos ver o que se passa lá em cima.
- Mestre, nós somos guardiões do imperador, por que não subir a colina? Nós dois juntos seríamos imbatíveis!
- Nossa missão é verificar o que está acontecendo na fronteira, retornar para o castelo e relatar o que vimos. Não haverá qualquer confronto hoje, entendido?!
- Sim mestre Kwao.
- Agora vamos, temos pouco tempo antes que escureça, e precisamos da luz para enxergar o que está havendo.
Ambos seguiram correndo, circundando a colina onde a suposta batalha estaria ocorrendo e em pouco tempo chegaram à base da serra. Seria uma subida difícil até uma posição que possibilitasse a visão perfeita do planalto, pois o caminho era formado de pedras pontiagudas mas as pernas treinadas de ambos tireses galgavam sem dificuldade as pedras que formavam o caminho até o ponto de observação.
Kin pensava consigo que era um desperdício estar tão próximo a um local de batalha e não participar do combate. Em todos os ensinamentos de seu mestre, o jovem discípulo tentava encontrar uma motivação para “disciplinar com a justiça” conforme as palavras do próprio Kwao todos aqueles que desobedeciam as leis ou de alguma forma os desejos do imperador.
Era perceptível sua ansiedade, bem como sua frustração. Ambos os sentimentos, apesar de antagônicos eram plenamente justificáveis. Nunca havia visto seu mestre preocupado como vira hoje, a turbulência emocional do velho lutador era tão intensa que suas passadas e respiração já ganhavam um ritmo mecânico, subindo a serra como uma locomotiva que não pode ser parada. Toda a preocupação de Kwao deixava Kin extremamente apreensivo porque era quase certo que o conflito ocorrendo no planalto abaixo deles tinha proporções nunca antes presenciadas pelo jovem tirês.
Por outro lado, Kin estava muitíssimo frustrado devido à impossibilidade de adentrar no combate. Havia nele a certeza e o controle obtido pela disciplina do treinamento que o compeliam a seguir as ordens do imperador mas por outro lado, seu instinto era extremamente impulsivo, característica essa que para um estudioso dos hábitos e comportamentos dos tireses ficaria claro e evidente mediante a simples observação das listras vermelhas na pelagem do bravo lutador.
%d 22UTC %B 22UTC %Y às %H:%M 04Tue, 22 Nov 2011 16:58:27 +000027.
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