Conto: Encontro Mortal / Aventura: Nas Cavernas da Loucura

"Ele precisa ser eliminado o quanto antes..."

Com a finalidade de trazer aos Observadores um pouco da ambientação das Terras de Shiang, serão publicados alguns contos que são adaptações de jogos realizados neste cenário. O primeiro deles, Encontro Mortal narra o encontro de um sinistro vilão e de um herói Lâmina Mortal. Este e outros relatos estão dentro da aventura Nas Cavernas da Loucura.

−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−−

Um lugar estranho para marcarem um encontro, pensava o tirês que vestia um manto, posto em pé no final do beco. Não saía de sua cabeça que aquele lugar cheirava a uma armadilha.
Realmente era muito incomum os Lâminas Mortais marcarem reuniões para discutirem assuntos de tamanha importância, como aquele mencionado na carta. Ainda mais na calada da noite, na periferia da cidade. Tudo parecia muito estranho.
Olhou para o céu e notou que nuvens escuras passavam pela lua, fazendo com que as sombras no chão ganhassem vida. Voltando os olhos para o beco, pôde ver a rua vazia, bem como os restos de alimento jogados pelo chão, enquanto alguns roedores grandes e de aspecto assustador alimentavam-se do lixo.
Uma sombra quase imperceptível (até para os olhos bem treinados), movia-se lentamente perto de onde estavam os roedores.
Seria a sombra de uma cabeça? Sim, sem dúvida era isso. Alguém deveria estar encima no telhado da casa logo atrás das suas costas.
As sombras da Lua poderiam mover-se daquela maneira, entretanto agora ouvia perfeitamente o som de passos vindos do telhado.
Sabia que era uma cilada. Claro que era! Mas e o papel com o selo? Não é possível! Um Lâmina Traidor?!
Colocou sua mão direita dentro do manto, segurando algo que estava dentro dele. Colocou-se em posição de batalha. Pernas arqueadas, tronco curvando-se para levemente para a esquerda, com a mão direita ainda dentro do manto.
Mais passos. Quantos eram? Dois? Três talvez. Ouvia nitidamente dois, não tinha certeza do terceiro.
Controlou sua respiração. Quem seria? O que queriam? Preparou-se para correr. Não poderia lutar ali. Seria uma presa fácil demais.
Disparou a correr. Flechas passaram rentes ao capuz de seu manto, fazendo com que sua cabeça ficasse descoberta.
Flechas vindas da frente? Como seria possível? Via agora duas figuras altas, com mantos negros, encima de dois telhados de casas diferentes.
Virou à direita na rua principal. Mais duas flechas cravaram logo à sua frente. Deveria haver mais dois atiradores, talvez os dois que tinha ouvido chegarem sorrateiramente perto do beco.
Viu alguns caixotes da loja de ferragens logo em frente. Iria para o telhado, lutaria com eles. Sabia que suas chances eram pequenas, porém era melhor que ser um alvo móvel correndo pelas ruas.
Além do mais, era um Lâmina Mortal, se sentia parte do grande exército do Imperador. Não poderia fugir covardemente. Antes a morte em batalha que uma vida sem honra.
Preparou o pulo, deu dois passos largos e pulou sobre um caixote – três flechas passaram, duas de raspão  rasgando o manto na altura do abdômen. Pulou para o telhado.
Não eram quatro atiradores?
A quarta flecha veio, acertando-lhe a coxa. Caiu no telhado da loja agachado, retirando com a mão esquerda a flecha. Cravada em sua perna. Felizmente, ela não trespassou a armadura.
Via nitidamente os dois atiradores do seu lado da rua. Estavam vestindo igualmente mantos negros, com uma pequena insígnia vermelha estampada no peito.
Rolando para o lado, retirou o manto. Agora mostrava sua armadura de Lâmina, uma bela armadura que cobria todo seu corpo exceto a cabeça. Sua cor era azul com detalhes em dourado.
Desembainhou a espada, que emitia um brilho azul-celeste, iluminando aquela noite escura.
Fitou seus inimigos com os olhos do predador que enxerga a presa. Três telhados à frente estavam dois, que preparavam mais duas flechas. Seriam eles os primeiros. Os do outro lado da rua que esperassem, cuidaria deles depois.
Correu em ziguezague, pulando entre de uma casa para outra – duas flechas vindas do outro lado da rua passaram longe – “seria fácil”, pensou ele.
Os dois à sua frente não dispararam por quê? Estariam esperando algo?
Imóveis, os homens seguravam seus arcos, mesmo com o herói a apenas uma casa de distância. Mais um pulo e estaria ali. O que estariam esperando?
Uma figura alta pulou, (como não o vira?) colocando-se de frente para guerreiro e de costas para os arqueiros.
Segurava uma grande espada, vestindo igualmente um manto negro, de tecido pesado, com escritos prateados pelas bordas do tecido.
-Alto lá, Chan Misen!
Como ele sabia seu nome? – pensou O Lâmina Azul.
Sem pensar muito, desferiu um golpe que foi elegantemente esquivado, com a espada passando em falso na altura do peito do homem à frente de Chan.
Agora via que, o manto era muito parecido com aquele utilizado pelos comandantes dos sombras, a organização dos criminosos, que não se consideravam tireses nem leais ao imperador.
Os arqueiros continuavam imóveis, como se esperassem alguma ordem. O samurai olhava para os lados, sem entender o que estaria ocorrendo ali.
Por Shiang! Que loucura era aquela?
-Quem é você? – disse o herói
-Isso não importa. Você é acusado de traição contra seu imperador e contra sua organização. Diga algo em sua defesa ou morra.
-Traição contra meu imperador? Não tenho feito nada exceto ser leal ao meu imperador!
-Traindo os servos do imperador você trai ao imperador em pessoa, Chan Misen!
-Não sei do que você está falando.
-Como você se considera?- berrava o Sombra
-Quem é você para me julgar, sombra maldito?!
-Como você se considera?! –falou o Sombra, berrando cada vez mais a cada palavra dita.
-Inocente! Sou inocente! Não traí ninguém, muito menos meu imperador.
-Se você é inocente, então prove, vindo conosco, e o levaremos à julgamento.
-Ser julgado pelos Sombras? Prefiro a morte!
-Que assim seja tires!
Quatro flechas atingiram a armadura. Nitidamente, três das quatro tinham penetrado a proteção e sangue começou a sair dos ferimentos.
O samurai arqueou o corpo para a frente, cuspindo um pouco de sangue. Mesmo assim, desferiu mais um golpe com sua espada contra o chefe dos Sombras.
Dessa vez ele acerta, na altura da barriga. O Sombra dobra, sentindo uma dor traduzida em um rugido que ecoou pela noite da cidade de Minas.
Chan Misen dá um sorriso com o canto da boca. Sabia que morreria logo, mas levaria aquele ser imprestável com ele.
-Você não tem idéia do que fez  tires. Agora, eu não vou só me contentar em acabar com seu corpo, mas vou aprisionar sua alma! Você sofrerá eternamente no Plano dos Tormentos, enquanto eu reinarei absoluto sobre todas as Terras de Shiang! – disse o Sombra, que terminou desferindo um golpe de espada sobre o herói.
Tentou sair do golpe, que tinha sido muito bem preparado e executado. Não conseguiu. Foi atingido no peito, a lâmina do inimigo rasgando sua armadura e fazendo um ferimento mortal.
Respirava com dificuldade agora, sabia que iria morrer. Uma cilada muito bem armada. Quem teria mandado a carta. Segurava com a mão esquerda a carta que estava dentro de sua armadura.
A taciturna figura de manto adornado com escritos cor de prata, retirou seu capuz. Chan Misen! Olhou para aqueles olhos, aquele rosto e disse:
-Você! Mas como, por quê?
O Sombra abaixou, pegando a carta da mão do Lâmina Mortal, e disse:
- Obrigado por ter atendido ao meu chamado. Agora as coisas ficarão muito mais fáceis. Você foi muito idiota de aparecer aqui no meio da madrugada, sem ter avisado alguém.
-Mas por quê? O que aconteceu?
-Nada… Nada aconteceu. Eu simplesmente achei que obterei poder mais rápido com você fora do caminho. Dane-se o imperador. Não faço a menor questão de ser escravinho daquele enganador barato. E você, com sua devoção cega, imbecil ao imperador, seria uma pedra no meu sapato. Então, resolvi me livrar de você enquanto não era um problema. Um bom mestre se reconhece pelos grandes planos.
-Você sabe que não pode vencer o Imperador Shiang.
-Eu? Realmente não. Mas eu sirvo a outro comandante, meu caro. Os reis dos planos inferiores, aqueles que dominam a magia verdadeira, que tudo sabem e que recompensam os bravos com poder.
-Maluco! Não, você pode fazer isso! – tossiu e cuspiu sangue
-Ah, eu posso. E vou. Entenda assim Chan Misen: durante toda a história de nossa terra, os tireses só evoluíram quando algum mal ocorria. Eles sempre tenderam a equilibrar a balança e, fazendo isso, cresceram. Portanto, encare-me como um professor. Eu, dessa vez serei a força que fará com que os tireses evoluam! Claro que algumas vidas inúteis poderão ser perdidas neste doloroso processo, mães ficarão sem filhos, filhos sem pais, etc. Aquela baboseira de sempre.
O herói segurava a lâmina com força. Faria um último hercúleo esforço para acabar com aquela loucura. Era insanidade tentar contato com o Plano dos Tormentos. Seria o fim da raça tiresa! Não poderia permitir que aquilo ocorresse. Agarrou o punho de sua espada e juntou todas as suas forças para o derradeiro golpe.
Puxou a espada. Rapidamente, o Sombra virou a lâmina de sua espada para baixo e cravou-a no meio do peito do herói moribundo.
Com a boca cheia de sangue, o samurai ainda diz:
-Meu pupilo vai acabar com você… ele me vingará, desgraçado.
Girou a lâmina da espada, deliciando-se com o sofrimento do herói e disse:
-Vai sim, claro que vai. Principalmente sem treinamento.
-A vida, sempre encontra um caminho de equilibrar a balança, meu amigo.
O sombra fincou o resto da lâmina de sua espada no peito do samurai que, com um grito rouco e uma tosse que expeliu o sangue que estava em sua boca, exalou seus últimos suspiros.
O Sombra retirou a lâmina, lambeu-a, cuspiu no cadáver e disse:
-Claro que encontra. Agora encontre o seu para a prisão dos flagelos perpétuos.
Um brilho negro saído do manto envolveu o corpo, com sombras que gritavam e rodopiavam em torno do cadáver. A massa de energia entrou no corpo, saindo logo após, envolvendo um brilho verde claro dentro delas. Pararam na altura da cabeça de seu mestre.
-Vão minhas crianças – disse o Sombra Mestre – levem-no.
As sombras desceram como um raio pela terra, levando junto a luz verde, e rodopiaram pelo chão até desaparecerem por completo.
-E vocês – disse o vilão apontando para os dois sombras mais próximos– deixem o corpo dele em um canto escuro, no centro da cidade. Que patético. Eu esperava mais de um Lâmina Mortal.
E com isso, pulou para a escuridão dos becos.

7 Responses to “Conto: Encontro Mortal / Aventura: Nas Cavernas da Loucura”

  1. Vocês estão de parabéns pelo ótimo trabalho.

    Continuem assim, estou ansioso pelo impresso, pois vocês me pouparam de ter que criar um conceito oriental para mestrar a meus amigos, e está oferecendo algo melhor do que um conceito, algo planejado e bem produzido, a equipe toda será gratificada logo, logo.

  2. [...] – Mao Siu (Lâmina Mortal) Mao Siu perdeu seu mestre no primeiro conto deste blog (Encontro Mortal), mas conseguiu terminar seu treinamento graças a intervenção espiritual do Servidor conhecido [...]

  3. [...] animais a divindade recebe o título de Deus Trovão. Esse conto é um prelúdio da saga ‘Nas Cavernas da Loucura‘, e apresenta Chieng Lao, um jovem mago-guerreiro viajante discípulo do mestre Chuva [...]

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>